Quem procura um laser estético geralmente quer resolver uma mancha, não criar uma. Por isso é particularmente frustrante quando o resultado é o oposto do esperado: uma área que escureceu, ou que perdeu a cor, depois do procedimento. A pergunta que segue, “isso é normal ou foi erro?”, tem uma resposta que depende, em grande parte, de um fator técnico que o paciente raramente conhece: a regulação do aparelho para o seu tipo de pele.
O que são essas manchas
As alterações de pigmentação após o laser aparecem em dois sentidos opostos:
Hiperpigmentação (a pele escurece): o aumento de melanina na área tratada, muitas vezes uma resposta inflamatória ao calor, conhecida como hiperpigmentação pós-inflamatória.
Hipopigmentação (a pele clareia ou perde cor): a redução ou destruição de melanina, que pode deixar áreas mais claras que a pele ao redor.
Ambas podem ser transitórias ou persistentes, e essa diferença importa. A hiperpigmentação pós-inflamatória, em muitos casos, tende a melhorar com o tempo e com tratamento; a hipopigmentação, dependendo da extensão do dano, pode ser mais duradoura.
Por que o tipo de pele é central
Aqui está o ponto técnico decisivo, e ele é o mesmo que rege as queimaduras por laser. O laser age sendo absorvido pela melanina. Quanto mais pigmentada a pele, mais ela absorve a energia, e maior o risco de que o calor destinado ao alvo (o pelo, o vaso, a mancha original) atinja a própria pele, causando alteração de pigmentação.
Por isso, a regulação dos parâmetros do aparelho (fluência, comprimento de onda, duração do pulso, resfriamento) precisa ser ajustada ao fototipo do paciente. Parâmetros inadequados para uma pele mais pigmentada são uma causa reconhecida de manchas. A avaliação correta do tipo de pele, antes do procedimento, é parte do dever técnico, não um detalhe.
Como o direito analisa
A distinção entre erro, intercorrência e insatisfação, que estrutura este silo e desenvolvemos no guia, organiza a análise:
- Os parâmetros foram ajustados ao fototipo? Este é o eixo central. Manchas decorrentes de energia inadequada para o tipo de pele apontam para falha técnica.
- A avaliação prévia foi feita? Investigar o fototipo, o histórico de manchas e o uso de medicamentos ou exposição solar recente é dever do profissional.
- A reação é transitória ou permanente? Uma hiperpigmentação que tende a melhorar difere de um dano pigmentar persistente.
- O manejo foi adequado? A condução da mancha depois que ela surge também entra na análise.
O tipo de obrigação, tratado na seção correspondente do guia, pesa: os serviços estéticos com laser costumam ser tratados na lógica de resultado e do Código de Defesa do Consumidor, o que favorece o paciente quando há falha comprovada, especialmente se a perícia identificar parâmetros incompatíveis com o fototipo.
Os deveres do paciente
Em nome da honestidade da marca, o outro lado importa. O paciente tem deveres cujo descumprimento pode afastar a responsabilidade do profissional: informar uso de medicamentos fotossensibilizantes, relatar exposição solar recente, seguir as orientações de cuidado e de proteção solar após as sessões. A exposição ao sol após o laser, por exemplo, é um fator conhecido de hiperpigmentação. Quando o dano decorre do descumprimento de orientações devidamente informadas e registradas, a análise muda de lado.
O que preservar
Fotografias de antes e depois, o registro dos parâmetros usados em cada sessão, o contrato, o prontuário ou ficha de atendimento, as orientações recebidas, e laudos do tratamento das manchas. O registro dos parâmetros é especialmente importante, porque é o que uma perícia confrontará com o seu fototipo.
A resposta honesta
Uma mancha após o laser pode ser uma reação transitória e esperada, que tende a melhorar, ou o resultado de parâmetros inadequados ao tipo de pele, o que aponta para falha. O fator decisivo costuma ser a compatibilidade entre a energia aplicada e o fototipo do paciente. Nem toda alteração de cor é erro, mas quando ela decorre de regulação imprópria, há um caso a examinar. Distinguir a reação esperada da falha evitável, e considerar também os cuidados que cabiam ao paciente, é o trabalho de uma análise séria.
Se você ficou com uma mancha após um procedimento a laser, o escritório está disponível para uma análise responsável da sua situação.
Sobre o autor
Ramon Martins Andrade (OAB/RJ 188.374) é advogado formado pela UFRJ em 2011, com mestrados pela Université Sorbonne Nouvelle e pela EGN (Marinha do Brasil). Atualmente pesquisador em Direitos Humanos e Saúde pela ENSP/Fiocruz.
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