É um paradoxo cruel da ortodontia: o tratamento que alinharia o sorriso pode, silenciosamente, encurtar as raízes dos dentes — a reabsorção radicular, visível só em radiografia, que em graus avançados deixa dentes permanentemente enfraquecidos ou perdidos. O paciente raramente sabe que isso existe até descobrir que aconteceu com ele.
Risco conhecido, gestão obrigatória
Algum grau de reabsorção é inerente à movimentação ortodôntica — o que a torna, em princípio, risco e não erro. Mas é risco que se gerencia: o padrão técnico manda avaliar fatores de risco antes (raízes já curtas ou em forma de pipeta, histórico de trauma, reabsorções prévias), monitorar radiograficamente durante o tratamento e, diante de reabsorção em progresso, repensar a mecânica — pausar, moderar forças, até interromper. A responsabilidade não nasce da reabsorção; nasce do tratamento que seguiu em frente, com forças pesadas e sem radiografias de controle, enquanto as raízes derretiam.
Os padrões de falha associados
- O tratamento interminável — anos além do prazo razoável, sem reavaliação de plano, multiplicando a exposição ao risco.
- A ausência de documentação inicial — sem radiografias e modelos de partida, não há como provar que as raízes eram normais antes; a falta dessa documentação, exigida pelo padrão da especialidade, pesa contra o profissional.
- O controle radiográfico que não houve — anos de ajustes mensais sem uma única imagem de acompanhamento.
- A informação omitida — o paciente de risco elevado que nunca ouviu a palavra “reabsorção” antes de autorizar o tratamento.
- O alinhador “acelerado” — promessas comerciais de resultado em poucos meses, com forças e protocolos incompatíveis com a biologia.
Como se analisa — e o que reunir
A perícia compara o antes e o depois radiográficos e reconstitui a gestão do risco: havia fatores identificáveis? houve monitoramento? a mecânica respondeu aos sinais? Reúna toda a documentação ortodôntica (radiografias, modelos, o contrato do tratamento), os registros de duração e trocas de profissional, e uma avaliação atual da extensão do dano — que define, inclusive, o custo futuro (contenções, próteses, implantes) que integra a discussão reparatória.
Se o seu tratamento ortodôntico terminou com raízes comprometidas — ou não terminou nunca —, o escritório está disponível para uma análise responsável do caso.
Este artigo integra o guia do escritório sobre erro odontológico, onde os eixos comuns — obrigação de resultado, dever de informação, prova e prazo — estão desenvolvidos.
Sobre o autor
Ramon Martins Andrade (OAB/RJ 188.374) é advogado formado pela UFRJ em 2011, com mestrados pela Université Sorbonne Nouvelle e pela EGN (Marinha do Brasil). Atualmente pesquisador em Direitos Humanos e Saúde pela ENSP/Fiocruz.
Este conteúdo tem caráter meramente informativo e educacional, não constitui consulta jurídica, publicidade de resultados ou garantia de êxito em processos, nos termos do Provimento 205/2021 da OAB.