Você contou a sua história a uma inteligência artificial: os sintomas ignorados, o diagnóstico que demorou, a cirurgia que não saiu como esperado. A resposta veio estruturada e concluiu que “há indícios de erro médico”. Este artigo examina o que essa conclusão vale, e o caminho entre ela e um caso real. A resposta curta: a IA avaliou a sua narrativa, e narrativa não é prova.
A IA raciocina sobre o que você contou
O relato que você forneceu é, por definição, unilateral: contém a sua dor, a sua memória dos fatos e a sua seleção do que pareceu relevante. Não contém o prontuário, os exames na íntegra, a evolução registrada pela equipe, nem a versão do profissional. Há ainda um traço técnico dessas ferramentas que merece ser dito com clareza: modelos de linguagem tendem a concordar com quem pergunta. Foram treinados para ser úteis à pessoa que está na conversa, e isso enviesa a análise na direção do que você espera ouvir. A perícia judicial foi desenhada com a lógica oposta: um terceiro, equidistante, com acesso à documentação completa.
O que é erro médico, tecnicamente
A medicina assistencial é, em regra, obrigação de meio: o profissional deve empregar a técnica adequada e a diligência devida, sem garantir resultado. Erro médico não é o resultado ruim; é a conduta abaixo do padrão técnico exigível, avaliada nas circunstâncias concretas, com nexo causal com o dano. Essa aferição se faz sobre o prontuário e pela perícia, não sobre a impressão de quem viveu o caso, por mais legítima que ela seja. A estrutura completa dessa análise está no nosso guia completo sobre erro médico.
O caminho da verificação
- Obter o prontuário integral. É direito do paciente, e é o documento sobre o qual qualquer análise séria se constrói.
- Reunir exames, receitas, laudos e comprovantes, na ordem do tempo.
- Submeter o conjunto a uma avaliação técnica e jurídica, que confronte a conduta registrada com o padrão esperado, e diga com franqueza se existe caso, o que inclui a hipótese de não existir.
Essa última parte é a que distingue uma análise responsável: o compromisso é com a resposta verdadeira, não com a resposta desejada. Há situações em que o desfecho foi trágico e a conduta foi correta; dizer isso ao paciente também é advocacia, como detalhamos no guia completo.
Onde a IA soma de verdade
Organizar a cronologia, traduzir termos técnicos do prontuário, preparar perguntas para a consulta. Quem chega com esse trabalho feito aproveita melhor a análise profissional, como discutimos em fiz uma petição com inteligência artificial: ainda preciso de advogado?. Curiosamente, a IA aparece dos dois lados desse tema: sobre o que acontece quando ela participa do próprio diagnóstico, veja IA erra o diagnóstico: quem responde?.
Se a sua história, confrontada com os documentos, sustentar o que a IA sugeriu, você terá um caso com base real, e não apenas uma conversa que confirmou a sua suspeita. O escritório está disponível para uma análise responsável da sua situação.
Este artigo integra o guia do escritório sobre erro médico, onde a obrigação de meio, a prova e os caminhos da responsabilização estão desenvolvidos.
Sobre o autor
Ramon Martins Andrade (OAB/RJ 188.374) é advogado formado pela UFRJ em 2011, com mestrados pela Université Sorbonne Nouvelle e pela EGN (Marinha do Brasil). Atualmente pesquisador em Direitos Humanos e Saúde pela ENSP/Fiocruz.
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Este conteúdo tem caráter meramente informativo e educacional, não constitui consulta jurídica, publicidade de resultados ou garantia de êxito em processos, nos termos do Provimento 205/2021 da OAB.
