Se você sente dor intensa, alteração na visão ou mudança de cor da pele do nariz agora, depois de uma rinomodelação, procure atendimento médico de emergência imediatamente

O nariz é uma das regiões de maior risco vascular para preenchimento. Dor desproporcional, embranquecimento ou escurecimento da pele, alteração visual durante ou logo após o procedimento exigem atendimento de urgência sem espera. A leitura pode continuar depois.

O que este texto responde

A rinomodelação, o remodelamento do nariz com preenchedor, sem cirurgia, é popular justamente por parecer simples: uma aplicação rápida, sem corte, sem recuperação longa. Essa aparência de simplicidade esconde um dos riscos mais sérios da estética injetável. Este texto explica por que a região do nariz é perigosa, quais são as complicações, e como o direito analisa a responsabilidade.

Por que o nariz é uma zona de alto risco

A explicação está na anatomia vascular. A região do nariz é irrigada por vasos que se comunicam com a circulação ocular, através de ramos ligados à artéria oftálmica. Quando o preenchedor é injetado inadvertidamente dentro de um desses vasos, sob pressão, ele pode ser conduzido em sentido retrógrado e alcançar a circulação da retina.

As consequências descritas na literatura vão da necrose da pele do nariz, por oclusão vascular local, até, em casos raros, a perda visual (amaurose) por oclusão da artéria retiniana, um desfecho súbito e potencialmente irreversível. O nariz e a glabela são justamente as regiões que a literatura aponta como de maior risco para essas complicações vasculares.

É por isso que a aparente simplicidade da rinomodelação é enganosa: o procedimento exige conhecimento anatômico profundo e capacidade de reconhecer e manejar uma emergência vascular.

As complicações, do menos ao mais grave

A literatura descreve um espectro:

  • Complicações locais transitórias: edema, vermelhidão, hematoma, geralmente passageiros.
  • Assimetria e resultado insatisfatório: o nariz que não ficou como esperado.
  • Oclusão vascular com necrose: o comprometimento da irrigação da pele, que evolui, se não tratado, para lesão do tecido.
  • Comprometimento visual: a complicação mais temida, rara, mas descrita, por embolização retrógrada até a circulação ocular.

Como o direito analisa

A ocorrência de uma complicação, por si, não responde à pergunta jurídica. O que se investiga é a conduta, segundo a distinção entre erro, intercorrência e insatisfação que tratamos no guia:

  • A técnica de prevenção foi empregada? A literatura descreve medidas reconhecidas de redução de risco, como aspiração antes de injetar, uso de cânula quando indicado, injeção lenta e em baixa pressão, conhecimento das zonas de perigo. A ausência dessas medidas é elemento relevante.
  • Havia estrutura para a emergência? Quem aplica em zona de alto risco deveria dispor dos meios de reconhecer e tratar uma oclusão vascular, incluindo a enzima hialuronidase.
  • A resposta à complicação foi tempestiva? Na oclusão vascular, o tempo de reação é decisivo, e a demora ou o manejo incorreto pesam na análise.
  • O risco foi informado? O paciente tinha o direito de saber que a rinomodelação, apesar da aparência simples, carrega risco de necrose e, raramente, de comprometimento visual. Essa informação, muitas vezes omitida, conecta-se ao dever de informação.

A habilitação de quem realizou o procedimento também entra na análise, e a tratamos em artigo específico sobre quem pode aplicar preenchimento.

Uma palavra sobre a informação omitida

Este é, talvez, o ponto mais frequente nas complicações de rinomodelação: a divulgação do procedimento como algo trivial. Quando o risco grave não é informado, e ele se materializa, a falha pode residir não na técnica, mas na informação que permitiu ao paciente consentir sem conhecer o que realmente estava em jogo. Consentir com um “procedimento simples” não é consentir com um risco de necrose ou de perda visual que não foi mencionado.

O que preservar

Se você sofreu uma complicação, reúna: fotografias da evolução (quanto antes, melhor), o prontuário e o termo de consentimento, o registro do produto e do lote, o histórico de como a complicação foi conduzida e os atendimentos de emergência. Esse material sustenta a análise sobre se houve falha juridicamente relevante.

A resposta honesta

A rinomodelação não é o procedimento trivial que sua popularidade sugere: o nariz é uma zona de alto risco vascular, e as complicações podem ser graves. Ainda assim, nem toda complicação decorre de erro, algumas são intercorrências reconhecidas, adequadamente conduzidas. O que a análise examina é a técnica de prevenção, a estrutura de emergência, o manejo e, com peso especial, a informação prévia. Distinguir a intercorrência da falha é o trabalho de uma análise séria, feita com a documentação em mãos.

Se você teve uma complicação após uma rinomodelação, o escritório está disponível para uma análise responsável da sua situação.

Sobre o autor

Ramon Martins Andrade (OAB/RJ 188.374) é advogado formado pela UFRJ em 2011, com mestrados pela Université Sorbonne Nouvelle e pela EGN (Marinha do Brasil). Atualmente pesquisador em Direitos Humanos e Saúde pela ENSP/Fiocruz.

Este conteúdo tem caráter meramente informativo e educacional, não constitui consulta jurídica, publicidade de resultados ou garantia de êxito em processos, nos termos do Provimento 205/2021 da OAB.