A extração dos terceiros molares é a cirurgia mais rotineira da odontologia — e a fonte mais comum de uma sequela que ninguém esquece: a dormência que não vai embora. Lábio, queixo ou língua adormecidos meses depois da extração indicam lesão dos nervos que passam exatamente onde o siso morava. A pergunta jurídica é a do silo inteiro: risco anatômico real ou falha evitável?
O que o planejamento devia ter visto
A relação entre as raízes do siso inferior e o canal do nervo alveolar é visível na radiografia panorâmica — e, nos casos de proximidade íntima, a tomografia é o exame que o padrão técnico indica antes de decidir como (e se) extrair. Boa parte dos casos jurídicos se decide aqui, antes do ato: a extração de risco alto feita sem a imagem tridimensional que teria mudado o planejamento — a técnica, a odontosecção, ou mesmo a opção pela coronectomia ou pelo acompanhamento — é o padrão de imperícia mais identificável da área.
Risco informado — de verdade
A parestesia é risco descrito da extração de sisos inferiores e deve ser informada nominalmente — sobretudo quando a imagem mostra proximidade com o canal. O termo genérico assinado na recepção não cumpre esse papel. E há o outro lado, como sempre: o paciente bem informado do risco alto, que optou pela extração tecnicamente bem executada, vivencia uma complicação — não um erro. A distinção passa pela imagem pré-operatória e pelo que foi conversado e registrado.
O tempo importa duas vezes
Clinicamente: parestesias podem regredir ao longo de meses, e o manejo correto inclui acompanhamento documentado e, em janelas específicas, o encaminhamento para avaliação de microcirurgia do nervo — a omissão desse encaminhamento é falha autônoma, que transforma sequela recuperável em definitiva. Juridicamente: o prazo para buscar reparação corre da consolidação do dano, e a documentação contemporânea (quando começou, o que foi dito, que retorno houve) vale ouro depois.
O que reunir
- As imagens pré-operatórias (panorâmica, tomografia se houver) — não só os laudos.
- O prontuário odontológico e o termo de consentimento, com o que ele nomeava.
- Registros da evolução da dormência e das consultas de retorno.
- Avaliação especializada atual, mapeando a extensão da lesão.
Se a dormência da sua extração passou de meses, o escritório está disponível para uma análise responsável do caso. O tema conversa com o artigo sobre lesão de nervo em implante, onde a mesma anatomia aparece por outra porta.
Este artigo integra o guia do escritório sobre erro odontológico, onde os eixos comuns — obrigação de resultado, dever de informação, prova e prazo — estão desenvolvidos.
Sobre o autor
Ramon Martins Andrade (OAB/RJ 188.374) é advogado formado pela UFRJ em 2011, com mestrados pela Université Sorbonne Nouvelle e pela EGN (Marinha do Brasil). Atualmente pesquisador em Direitos Humanos e Saúde pela ENSP/Fiocruz.
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Este conteúdo tem caráter meramente informativo e educacional, não constitui consulta jurídica, publicidade de resultados ou garantia de êxito em processos, nos termos do Provimento 205/2021 da OAB.
