Vendidos como o “lifting sem cortes”, os fios de sustentação — de PDO e materiais afins — ocupam um lugar peculiar no mercado estético: efeito mais modesto e transitório do que o marketing sugere, e complicações mais visíveis do que o paciente imagina. Extrusão do fio (a ponta que aparece sob a pele), repuxamentos e depressões, assimetrias, nódulos e infecções de trajeto compõem a lista real.
A promessa contra a entrega
O primeiro eixo desses casos é o abismo entre o vendido e o tecnicamente possível. Fios tracionam tecidos de forma limitada e temporária; não substituem a cirurgia. Quando a captação promete “efeito lifting” duradouro e entrega mudança imperceptível — ou pior, visível pelo defeito —, a frustração tem relevância jurídica: no procedimento de finalidade exclusivamente estética, a obrigação é de resultado, e a publicidade integra o contrato. O material do Instagram da clínica é, literalmente, prova.
As complicações e sua leitura técnica
- Extrusão e visibilidade do fio — em geral indicam plano de inserção superficial demais; é a complicação com leitura técnica mais direta.
- Repuxamento e assimetria — vetores de tração mal planejados; a correção às vezes exige remover fios e esperar meses.
- Nódulos e granulomas — reação ao material ou técnica; a rastreabilidade do produto (marca, registro Anvisa, lote em nota fiscal) entra na análise, como em todo injetável.
- Infecção de trajeto — assepsia e ambiente; procedimento feito fora de estrutura adequada pesa contra o profissional e o estabelecimento.
- Lesão de estruturas — mais rara, mas descrita: acometimento de nervos e ductos na face, cuja avaliação conversa com o eixo da imperícia.
Quem aplicou — a pergunta recorrente
Fios são aplicados por médicos de diversas especialidades, dentistas na harmonização orofacial e, na margem irregular do mercado, por quem não podia. O escopo profissional é a pergunta prévia — tratada em quem pode aplicar preenchimento e no guia de outros profissionais de saúde — e sua resposta desloca o caso inteiro.
O que reunir
Fotos datadas (antes, imediatamente depois, e da complicação), o anúncio ou orçamento com a promessa, o termo de consentimento, a nota fiscal com o produto e, se houver correção em andamento, os relatórios do profissional que está corrigindo. Se a sua experiência com fios se parece com algum destes padrões, o escritório está disponível para uma análise responsável.
Este artigo integra o guia do escritório sobre erro em procedimentos estéticos, onde os eixos comuns — obrigação de resultado, dever de informação, prova e prazo — estão desenvolvidos.
Sobre o autor
Ramon Martins Andrade (OAB/RJ 188.374) é advogado formado pela UFRJ em 2011, com mestrados pela Université Sorbonne Nouvelle e pela EGN (Marinha do Brasil). Atualmente pesquisador em Direitos Humanos e Saúde pela ENSP/Fiocruz.
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Este conteúdo tem caráter meramente informativo e educacional, não constitui consulta jurídica, publicidade de resultados ou garantia de êxito em processos, nos termos do Provimento 205/2021 da OAB.
