Por Ramon Martins Andrade, advogado (OAB/RJ 188.374)

A pergunta chega quase sempre com essa formulação, e ela embute três pedidos distintos que o direito trata de maneiras diferentes: desfazer o contrato, receber de volta o que se pagou e ser indenizado pelo que se perdeu. Separar os três é o primeiro trabalho útil — e é também o que costuma revelar que o caso é mais forte, ou mais fraco, do que parecia.

O Código de Defesa do Consumidor dá a escolha a quem contratou

Quando o serviço tem vício, o art. 20 do Código de Defesa do Consumidor abre três caminhos, e diz com todas as letras de quem é a escolha: o consumidor pode exigir, “alternativamente e à sua escolha: I – a reexecução dos serviços, sem custo adicional e quando cabível; II – a restituição imediata da quantia paga, monetariamente atualizada, sem prejuízo de eventuais perdas e danos; III – o abatimento proporcional do preço”.

Duas consequências. A primeira: a clínica não pode impor o retoque como única saída. Oferecer é legítimo; condicionar tudo o mais a ele, não. A segunda vem do § 1º do mesmo artigo, que permite que “a reexecução dos serviços poderá ser confiada a terceiros devidamente capacitados, por conta e risco do fornecedor” — quer dizer, quem perdeu a confiança no profissional não precisa voltar à mesma cadeira para exercer o inciso I.

Tudo isso, porém, depende de uma premissa: que exista vício. E é aí que a conversa fica desconfortável.

Insatisfação não é, por si só, vício

O § 2º do art. 20 define serviço impróprio como aquele “inadequado para os fins que razoavelmente dele se esperam”, ou que não atenda às normas regulamentares de prestabilidade. A palavra que faz o trabalho é razoavelmente.

Procedimento estético puramente embelezador costuma ser tratado como obrigação de resultado, e isso de fato favorece o paciente: quem promete determinado efeito responde por não o entregar, independentemente de culpa provada. Mas resultado prometido não é o mesmo que resultado imaginado. Um preenchimento que assentou de modo diferente do que a pessoa desejava, dentro da variação previsível daquele procedimento e informada antes, é decepção — não é vício.

A fronteira entre as duas coisas raramente se decide por opinião. Decide-se por documento: o que foi prometido por escrito, o que constou do termo de consentimento, o que o prontuário registra, o que as fotografias de antes mostram. Um caso de insatisfação sem qualquer registro de promessa é, quase sempre, um caso frágil — e dizer isso a tempo poupa dinheiro e desgaste. Essa fronteira entre resultado frustrado e erro é o eixo do guia sobre erro em procedimentos estéticos. Quem decide sair do pacote mesmo sem vício tem outro caminho, com outra conta: desisti no meio do pacote de sessões.

O arrependimento de sete dias quase nunca serve aqui

É comum ouvir que “existe o prazo de sete dias para desistir”. Existe, mas com um pressuposto que o próprio artigo enuncia. O art. 49 do Código de Defesa do Consumidor: “O consumidor pode desistir do contrato, no prazo de 7 dias a contar de sua assinatura ou do ato de recebimento do produto ou serviço, sempre que a contratação de fornecimento de produtos e serviços ocorrer fora do estabelecimento comercial, especialmente por telefone ou a domicílio.”

Fora do estabelecimento comercial. Quem assinou o contrato dentro da clínica, na consulta de avaliação, não está nessa hipótese. Quem fechou o pacote por telefone, por mensagem ou por um formulário na internet, sem nunca ter ido ao local, pode estar — e aí o parágrafo único manda devolver “de imediato, monetariamente atualizados”, os valores pagos durante o prazo de reflexão.

A distinção é técnica e desagrada aos dois lados: derruba o argumento fácil do paciente e derruba também a recusa automática da clínica, que costuma ignorar que a venda à distância mudou de tratamento.

Somar restituição e indenização pode virar cobrar duas vezes o mesmo

Este é o ponto em que pedidos bem-intencionados se enfraquecem sozinhos. Devolver o que se pagou e ser indenizado pelo prejuízo são coisas distintas, e o Código Civil permite as duas — mas não permite que a mesma perda seja paga duas vezes.

O art. 884 é claro sobre o limite: “Aquele que, sem justa causa, se enriquecer à custa de outrem, será obrigado a restituir o indevidamente auferido, feita a atualização dos valores monetários.” A regra protege quem pagou; e, pela mesma lógica, impede que quem recebe fique com mais do que perdeu.

Já as perdas e danos abrangem, pelo art. 402, “além do que ele efetivamente perdeu, o que razoavelmente deixou de lucrar”, e o art. 403 as limita aos “prejuízos efetivos e os lucros cessantes por efeito dela direto e imediato”. Traduzindo para o caso concreto: o custo de corrigir o que ficou errado é prejuízo efetivo e se pede; o valor pago pelo procedimento original se pede como restituição; o que não se sustenta é pedir a devolução integral do que se pagou e, além dela, o custo da correção como se fossem danos independentes, sem explicar por que os dois não se sobrepõem.

Antes de qualquer pedido, três documentos

O contrato e todo material de divulgação daquele procedimento, porque é neles que se lê o que foi prometido. O termo de consentimento assinado, porque é nele que se lê o que foi advertido. E o prontuário completo, que a clínica tem o dever de fornecer em cópia quando solicitado.

Com esses três em mãos, a pergunta inicial deixa de ser “posso pedir o dinheiro de volta” e passa a ser a pergunta correta: o que exatamente foi prometido, o que exatamente foi entregue, e qual a distância entre as duas coisas.

Para fechar

Nada aqui afirma que resultado insatisfatório gere direito à devolução. Muitas vezes não gera, e a análise honesta de um caso começa por admitir essa possibilidade.

Nada aqui trata de complicação clínica com dano à saúde, que é outra discussão — ali não se fala em vício de serviço, e sim em reparação de dano, com regras e provas próprias.

E há o ponto que nenhum artigo resolve à distância: a força de um pedido de restituição depende quase inteiramente do que está escrito nos papéis daquele atendimento. Dois casos com a mesma queixa e documentação diferente terminam de maneiras opostas.

Se você está com essa dúvida e tem em mãos o contrato, o termo de consentimento e o prontuário, entre em contato: o escritório lê os documentos e responde com franqueza, inclusive quando a conclusão é a de que não houve vício e não há o que pedir.

Ramon Martins Andrade (OAB/RJ 188.374) é advogado formado pela UFRJ em 2011, com mestrados pela Université Sorbonne Nouvelle e pela EGN (Marinha do Brasil). Atualmente pesquisador em Direitos Humanos e Saúde pela ENSP/Fiocruz.

Este conteúdo tem caráter meramente informativo e educacional, não constitui consulta jurídica, publicidade de resultados ou garantia de êxito em processos, nos termos do Provimento 205/2021 da OAB.