Por Ramon Martins Andrade, advogado (OAB/RJ 188.374)

“Efeito imediato e caráter irrevogável.” É com essas palavras que a RN 561/2022 da ANS, no art. 15, II, descreve o pedido de cancelamento de um plano de saúde, e a operadora é obrigada a dizê-las a quem pede. Para quem está de mudança para outro país, a frase muda a natureza da decisão: o plano brasileiro pode ser mantido ou encerrado, e o encerramento não tem volta. A norma não prevê uma terceira opção, de deixar o contrato em espera, e há duas leituras razoáveis, de conclusões opostas, sobre o que fazer.

A leitura de quem cancela: o plano não cobre onde vou morar

O argumento é sólido, e a lei o confirma. Todo contrato deve indicar “a área geográfica de abrangência” (Lei 9.656/1998, art. 16, X), e o plano-referência compreende “partos e tratamentos, realizados exclusivamente no Brasil” (art. 10). Consulta, exame ou internação no país de residência ficam fora da obrigação da operadora, salvo se o contrato tiver previsto cobertura internacional.

Por essa leitura, manter o plano é pagar anos de mensalidade por um serviço que só existe nas visitas ao Brasil. E cancelar o plano individual ou familiar é simples: pede-se presencialmente, por telefone ou pela internet. O único custo previsto na RN 561 é a multa rescisória, e só para quem contratou há menos de doze meses e a tem escrita no contrato (art. 20).

A leitura contrária: o que se paga é a volta

Quem mantém o contrato não está pagando pelas consultas que deixará de fazer. Paga por três posições que o tempo de contrato construiu e que o cancelamento apaga de uma vez.

  • Carências cumpridas. Um contrato novo pode impor até trezentos dias para parto a termo e até cento e oitenta dias para os demais casos (art. 12, V, da Lei 9.656).
  • O prazo das doenças preexistentes. A lei veda a exclusão de cobertura de doença ou lesão preexistente “após vinte e quatro meses de vigência” do contrato (art. 11). Quem já venceu esse prazo e cancela volta a ficar exposto a ele no plano seguinte. Para quem tem um diagnóstico relevante, ou vier a tê-lo fora, isso pesa mais do que a carência.
  • A portabilidade. O direito de mudar de plano sem cumprir novas carências exige, entre os requisitos do art. 3º da RN 438/2018, que “o vínculo do beneficiário com o plano de origem” esteja ativo. As exceções que a norma abre a essa exigência não incluem o cancelamento a pedido. A resolução, conferida na base de legislação da ANS em outubro de 2026, segue em vigor, embora a agência tenha realizado em junho uma audiência pública para atualizá-la.

Essa leitura tem ainda uma proteção a seu favor. No plano contratado individualmente, a operadora não pode encerrar o contrato porque o titular foi morar fora: a lei só admite a rescisão unilateral “por fraude ou não-pagamento da mensalidade por período superior a sessenta dias, consecutivos ou não, nos últimos doze meses de vigência do contrato” (art. 13, parágrafo único, II). O risco real de quem está longe é a inadimplência involuntária: o cartão que venceu, o aviso enviado a um endereço que ninguém abre.

Onde eu fico, e o que a lei alemã tem que a nossa não tem

Penso que a segunda leitura é a correta para quem tem intenção de voltar e algum histórico de saúde, próprio ou de dependente, e que a primeira é a correta para quem vai sem previsão de retorno e sem diagnóstico que um plano novo pudesse tratar como preexistente. Quem está nesse segundo grupo não precisa de advogado: precisa do protocolo do cancelamento guardado. O que mais pesa contra manter é o custo acumulado de anos de mensalidade, com reajustes, por um contrato quase sem uso. Mas a mensalidade é um custo conhecido, e o diagnóstico que transforma um plano novo em plano com restrições não avisa quando vem.

Para o caso intermediário, existe um caminho: ainda com o vínculo ativo, usar a portabilidade para migrar a um plano brasileiro de preço menor e mantê-lo durante os anos fora. Só não aconselho deixar isso para a última hora, à distância. No relatório com que a ANS avaliou a RN 438 em maio de 2026, a agência contou 24.965 reclamações sobre o tema entre junho de 2018 e março de 2026, e a negativa de portabilidade respondia por cerca de 30% delas. O dado é de reclamações, não de pedidos, e por isso não mede a chance de recusa; mostra que o procedimento emperra o bastante para ser resolvido antes do embarque. Os motivos de recusa mais comuns estão em O plano negou a minha portabilidade de carências.

Considero uma lacuna da regulação brasileira não haver meio-termo entre pagar tudo e perder tudo. A lei alemã do contrato de seguro (VVG) resolve o problema em uma frase: no seguro-saúde privado calculado à maneira do seguro de vida, o segurado tem o direito de continuar um contrato cancelado “in Form einer Anwartschaftsversicherung”, isto é, na forma de um seguro de expectativa, que conserva os direitos adquiridos sem cobertura corrente (§ 204, 5; tradução livre). A mesma lei prevê que, se o segurado transfere a residência habitual para outro Estado da União Europeia, a relação continua, limitada às prestações que seriam devidas no próprio país (§ 207, 3). A comparação tem limite, porque o seguro privado alemão trabalha com reserva de envelhecimento por segurado, mencionada na própria lei. Ainda assim, mostra que a suspensão é uma escolha regulatória possível. No Brasil, qualquer “pausa” depende do que a operadora aceitar por escrito.

Quando a decisão não é só do titular

Se apenas o titular se muda, o contrato familiar não precisa acabar. A RN 561 determina que “a exclusão do beneficiário titular do contrato individual ou familiar não extingue o contrato, sendo assegurado aos dependentes já inscritos o direito à manutenção das mesmas condições contratuais” (art. 15, V).

Nos planos coletivos, a proteção do art. 13 contra a rescisão unilateral não se aplica, porque a lei a reserva aos planos contratados individualmente. No coletivo por adesão, a permanência depende de o beneficiário conservar o vínculo com a entidade de classe ou associação contratante, e o pedido de exclusão tem o mesmo efeito imediato e irrevogável. No empresarial, a permanência de quem foi transferido segue as regras de elegibilidade do contrato coletivo, e vale obtê-las por escrito antes da partida.

A Lei 7.064/1982, que rege o empregado transferido para o exterior, não resolve essa parte. O que ela impõe à empresa é garantir, “no local de trabalho no exterior ou próximo a ele, serviços gratuitos e adequados de assistência médica e social” (art. 22). É assistência no destino, não manutenção do plano no Brasil. Em compensação, se o vínculo com o plano coletivo se extinguir por demissão, aposentadoria ou rescisão do contrato pela empresa ou pela operadora, a RN 438 abre sessenta dias para portar as carências a outro plano sem a exigência de vínculo ativo (art. 8º). Se a operadora ou o empregador já responderam por escrito sobre a sua permanência, ou se o contrato tem cláusula de abrangência ou de suspensão que você não sabe ler, entre em contato com esses dois documentos e a data prevista da mudança. Para a cobertura recusada dentro do Brasil, o ponto de partida é o guia sobre negativa de cobertura.

Ramon Martins Andrade (OAB/RJ 188.374) é advogado formado pela UFRJ em 2011, com mestrados pela Université Sorbonne Nouvelle e pela EGN (Marinha do Brasil). Atualmente pesquisador em Direitos Humanos e Saúde pela ENSP/Fiocruz.

Este conteúdo tem caráter meramente informativo e educacional, não constitui consulta jurídica, publicidade de resultados ou garantia de êxito em processos, nos termos do Provimento 205/2021 da OAB.