Por Ramon Martins Andrade, advogado (OAB/RJ 188.374)
Antes do direito, a saúde. Em crise aguda, com surto, risco de suicídio ou overdose, a prioridade é atendimento imediato: SAMU (192), a emergência mais próxima ou o CAPS da sua região. Em sofrimento emocional, o CVV atende no 188, 24 horas, gratuitamente. As providências jurídicas vêm depois, e podem ser conduzidas pela família.
Poucas situações desorganizam uma família como a crise de saúde mental de alguém que ela ama: o transtorno grave que se recusa a tratar, a dependência química que avança, o patrimônio que começa a escorrer. E poucas áreas do direito são tão mal explicadas. O público conhece uma palavra, “interdição”, e uma imagem, “internação compulsória”, quase sempre erradas para o seu caso; e a primeira página de resultados de busca é ocupada por quem vende a internação, dizendo o oposto do que a lei diz. Este guia organiza o mapa na lógica da lei brasileira, que tem uma direção clara: o cuidado em liberdade como regra, a restrição como exceção justificada, breve e documentada.
O que segue é o raciocínio inteiro, na ordem em que ele se apresenta a uma família: as três internações e os documentos que as sustentam; a internação do dependente químico, que ganhou regras próprias em 2019; quem paga, entre o SUS, o plano e a clínica; o outro lado do muro, quando a internação vira cárcere; a curatela, o apoio e a proteção do patrimônio; e por onde começar. Cada situação tem um texto próprio no site; este é o texto que os organiza.
As três internações, e por que a diferença importa
A Lei 10.216/2001, a lei da reforma psiquiátrica, condiciona qualquer internação psiquiátrica a laudo médico circunstanciado que caracterize os seus motivos (art. 6º) e a reconhece em três vias: a voluntária, com o consentimento do paciente; a involuntária, sem consentimento e a pedido de terceiro; e a compulsória, determinada pela Justiça. A maioria das famílias pede “compulsória” quando o que o caso comporta é a involuntária, que não exige processo judicial, e sim médico e vaga. Errar essa porta custa semanas preciosas. E a regra de fundo, no art. 4º, vale para todas: a internação só é indicada quando os recursos extra-hospitalares se mostram insuficientes.
Cada via tem os seus documentos, e a maior parte das discussões judiciais não é sobre a indicação clínica, é sobre documento e prazo. Na voluntária, a lei exige declaração assinada pelo paciente no momento da admissão, e o término se dá por solicitação escrita dele ou por determinação do médico assistente (art. 7º); o pedido de alta não abre a porta no mesmo minuto, mas o regime que ninguém assume é o abuso mais comum. Na involuntária, só médico registrado no CRM pode autorizar; o responsável técnico do estabelecimento, e não o médico que indicou, deve comunicar o Ministério Público em setenta e duas horas, na entrada e também na alta (art. 8º, § 1º); e o término se dá por solicitação escrita do familiar ou responsável, ou quando estabelecido pelo especialista responsável (art. 8º, § 2º). Repare no que a norma faz: dá ao familiar o poder de encerrar a internação, não o de mantê-la contra a avaliação do especialista. Quando a família não concorda com a alta, a pergunta que decide o caso é se a alta foi clínica ou administrativa, por esgotamento de diárias ou decisão de auditoria, e a primeira providência é pedir por escrito quem a determinou e com que fundamento. Os documentos que o médico assina, com a evolução que sustenta cada dia adicional de permanência, são o que separa a internação clinicamente correta da juridicamente frágil.
Dentro da internação, a pessoa continua sujeito de direitos. O art. 2º, parágrafo único, assegura tratamento com humanidade e respeito, proteção contra abuso e exploração, livre acesso aos meios de comunicação disponíveis, presença médica em qualquer tempo para esclarecer a necessidade da internação e tratamento pelos meios menos invasivos possíveis; o art. 10 obriga a direção a comunicar a família, em 24 horas, evasão, transferência, acidente, intercorrência clínica grave e falecimento. Quando o paciente é adolescente, somam-se as camadas do Estatuto da Criança e do Adolescente: o direito de ser ouvido (arts. 16, II, e 100, parágrafo único, XII), a internação como medida de proteção (art. 101, V) e a permanência em tempo integral de um dos pais ou responsável (art. 12), regra que colide frontalmente com a política de contato restrito de algumas clínicas. Internar um filho adolescente contra a vontade dele é juridicamente possível, e a decisão não é da família: é do médico. De quem é esse dever, por que ele se repete na alta e o que a sua falta prova, ou não prova, está em artigo próprio sobre a comunicação da internação involuntária ao Ministério Público. Quando o internado é adolescente, a Convenção sobre os Direitos da Criança garante um exame periódico da internação, tema do artigo sobre o reexame da internação do filho. Em qualquer das três, o remédio dado para manter o paciente quieto pede uma distinção própria, discutida em sedação como tratamento ou como contenção química. Se risco patrimonial ou alegada ordem pública bastam para justificar a involuntária é o que se examina em risco patrimonial e ordem pública podem justificar internação involuntária?.
Dependência química: a internação que a Lei 13.840 desenhou
Desde 2019, a internação involuntária do dependente químico tem regras próprias, no art. 23-A da Lei 11.343/2006, incluído pela Lei 13.840/2019. Quem pode pedir é a família ou o responsável legal, e, na absoluta falta deles, servidor de saúde ou da assistência social, nunca a polícia. Quem autoriza é médico registrado no CRM, depois da avaliação do tipo de droga, do padrão de uso e da impossibilidade comprovada de outras alternativas da rede de atenção; o pedido da família é pressuposto, não decisão. Onde: em unidades de saúde ou hospitais gerais com equipe multidisciplinar. Por quanto tempo: apenas o necessário à desintoxicação, com prazo máximo de noventa dias, e a família pode requerer ao médico a interrupção a qualquer tempo. Todas as internações e altas devem ser informadas em até setenta e duas horas ao Ministério Público, à Defensoria Pública e aos órgãos de fiscalização. O desenho legal completo poupa a família de duas armadilhas opostas: a paralisia e o atropelo.
Há uma frase de nove palavras que o mercado não repete, no § 9º do mesmo artigo: é vedada a realização de qualquer modalidade de internação nas comunidades terapêuticas acolhedoras. A expressão “clínica de recuperação” não é categoria jurídica; cobre a comunidade terapêutica, que acolhe residentes em regime voluntário, com adesão por escrito, avaliação médica prévia, plano individual e saída a qualquer momento (art. 26-A), e a clínica médica especializada, que é serviço de saúde, tem responsável técnico habilitado e pode internar. A Anvisa, na Nota Técnica 14/2025, classifica as duas como atividades de alto risco sanitário, que exigem licença antes de operar, afixada em local visível. O que checar antes de internar alguém cabe em cinco perguntas feitas na recepção; quatro sinais de irregularidade independem de opinião: licença ausente, retenção de documentos pessoais, proibição de contato com a família e isolamento ou contenção sem prescrição em estabelecimento que não é serviço de saúde.
Duas cláusulas de contrato aparecem com frequência e não se sustentam. A quarentena de contato, os “trinta dias de adaptação” sem telefonemas nem visitas, contraria o direito ao livre acesso aos meios de comunicação e a vedação de instituições com características asilares (Lei 10.216, arts. 2º e 4º, § 3º); restrição clínica individual, com motivo, prazo e registro no prontuário, é conduta; regra geral escrita antes de conhecer o paciente é política da casa, e política da casa não afasta direito previsto em lei. E a multa por saída antecipada com retenção integral do valor pago, ou a “permanência mínima” como condição, se discute pelo Código de Defesa do Consumidor e pelo Código Civil: paga-se pelo que foi prestado, e cláusula que pune a saída de um acolhimento que violava direitos legais não se sustenta. O mesmo raciocínio vale para as leis locais que passaram a prever a internação de pessoas em situação de rua: elas não criam um poder novo nem reduzem as exigências da lei federal, e os direitos de quem é internado à força continuam valendo dentro da internação, porque a condição de rua, por si só, não é fundamento para internar ninguém. Na rede pública existe ainda a Unidade de Acolhimento, residencial, transitória e voluntária, cuja vaga é definida pela equipe do CAPS, como explica o artigo sobre quem decide a vaga na Unidade de Acolhimento. O acolhimento noturno do CAPS AD III, aberto 24 horas, não é internação e tem teto próprio de catorze dias em trinta, como mostra o artigo sobre o CAPS AD III e o acolhimento noturno. O que a norma admite — e o que ela deixa de dizer sobre quem custeia a vaga — quando a oferta é de comunidade terapêutica está em internar meu filho numa comunidade terapêutica: a lei proíbe, e não diz quem paga.
Quem paga: o plano, o SUS e a clínica
Transtornos mentais e dependência química são doenças, e a resposta sobre quem paga depende da porta de entrada. No SUS, a internação psiquiátrica é gratuita (Lei 8.080/1990, arts. 7º, I, e 43), e não existe “acomodação paga”: o STF fixou no Tema 579 (RE 581.488) que é constitucional a regra que veda, no âmbito do SUS, a internação em acomodações superiores ou o atendimento diferenciado mediante pagamento da diferença. A rede pública de saúde mental, com o CAPS como porta de entrada, os leitos em hospital geral e a medicação, é maior e mais exigível do que se imagina, embora desigual entre cidades, e o regime geral do que se pode cobrar do poder público está no guia do SUS.
No plano de saúde com segmentação hospitalar, a internação psiquiátrica é cobertura obrigatória, e três limites protegem o paciente. A Súmula 302 do STJ considera abusiva a cláusula que limita no tempo a internação hospitalar, e a Lei 9.656/1998 veda, na internação, a limitação de prazo, valor máximo e quantidade (art. 12, II); a questão foi afetada ao Tema Repetitivo 1.314 do STJ, ainda sem julgamento, e afetar não é revogar. Desde a Lei 13.819/2019, o art. 10-C da Lei 9.656 obriga a cobertura do atendimento à violência autoprovocada e às tentativas de suicídio, encerrando por lei a exclusão silenciosa que antes se discutia caso a caso; e a crise suicida é urgência, com carência máxima de 24 horas (art. 12, V) e caracterização feita em declaração do médico assistente, não pela auditoria da operadora (art. 35-C). O que o plano pode, e muita família descobre da pior forma, é cobrar coparticipação: o STJ fixou no Tema 1.032 que não é abusiva a cláusula expressamente ajustada e informada, à razão máxima de 50% das despesas, nas internações psiquiátricas superiores a 30 dias por ano. Limitar o tempo é vedado; cobrar metade depois do 30º dia, com cláusula clara e dentro do teto, é admitido. A internação psiquiátrica negada pelo plano e as três portas do custeio da internação involuntária estão nos textos próprios.
A clínica de recuperação tem uma pegadinha de vocabulário que decide casos: a comunidade terapêutica, sem caráter hospitalar, em regra não integra a rede assistencial obrigatória do plano, e a conta se resolve pelo contrato com a própria instituição; a clínica médica com internação, sim, é cobertura. Na clínica particular, quem assina a admissão se obriga, e valem as verificações de sempre sobre o que o preço inclui, as regras de desligamento e a permanência mínima. Fora da internação, a cobertura ambulatorial também mudou: o limite de sessões de psicoterapia acabou em 2022, o burnout tem cobertura devida ainda que a operadora o chame de “fenômeno ocupacional”, o transtorno do jogo tem porta no SUS e cobertura no plano, e a esketamina negada se discute pelo relatório do psiquiatra, que é a peça que decide o caso antes da petição. O mesmo vale para o diagnóstico que antecede o cuidado: a avaliação neuropsicológica não aparece no Rol com esse nome, mas a consulta e as sessões com psicólogo aparecem — e explicamos a diferença, que decide a negativa, em o plano cobre avaliação neuropsicológica?. No atendimento ambulatorial, o teto numérico de sessões deixou de existir em 2022, quando as diretrizes de utilização foram revogadas: existe limite de sessões de terapia no plano. No SUS, o encaminhamento do CAPS a um Centro de Convivência não pode significar o fim da consulta e da prescrição, como o escritório explica em artigo sobre o CECO. Entre a consulta e o leito existe ainda a internação parcial: veja quando o plano deve cobrir o hospital-dia psiquiátrico. Quando a operadora alega que o transtorno foi omitido na contratação, a discussão passa pela Declaração de Saúde, tratada em o plano diz que omiti meu transtorno quando contratei. A eletroconvulsoterapia junta as duas perguntas, a do consentimento e a da cobertura, e é examinada em eletroconvulsoterapia: quem decide e se o plano cobre. Quando a via é o SUS e o paciente é criança ou adolescente, o art. 11-A do ECA, incluído pela Lei 15.413/2026, exige um programa de atenção infantojuvenil em quatro níveis, e o que isso permite cobrar do município está em a lei garante saúde mental ao meu filho no SUS: o que o município é obrigado a fazer? O alcance da expressão “todos os recursos terapêuticos”, do § 3.º do mesmo artigo, está em o que o ECA garante ao meu filho no SUS. Já a lei dos psicofármacos em crianças não limita a receita do médico, como explica a nova lei dos psicofármacos em crianças. Para tratamentos psiquiátricos fora do rol, o projeto de lei em debate e as regras que já valem hoje devem ser examinados separadamente: a proposta ainda não cria cobertura obrigatória. Para uma substância ainda investigada, a pergunta anterior é sua situação sanitária: o artigo sobre mebufotenina e depressão resistente examina os resultados do spray psicodélico, o acompanhamento previsto no estudo e a regulação brasileira.
O outro lado do muro: internações irregulares
A mesma lei que permite internar sem consentimento cerca essa exceção de garantias: laudo, prazo, comunicação ao Ministério Público, tratamento digno, reavaliação. Quando elas falham, na internação que se estende sem evolução registrada, na comunidade terapêutica que retém e isola, no “resgate” sem médico, o internado tem direitos e a família tem instrumentos, do pedido escrito à direção e ao Ministério Público até o habeas corpus e a responsabilização civil. Um escritório que atua pela família no acesso ao tratamento deve, com a mesma seriedade, defender o paciente do tratamento que vira cárcere; o que torna uma internação irregular está no texto que é o contrapeso de todos os outros.
Duas situações concentram as dúvidas. A contenção mecânica, o paciente amarrado ao leito, é regulada pela Resolução Cofen 746/2024: é recurso excepcional, com indicação registrada, monitoramento e prazo, e nunca castigo, disciplina ou conveniência da equipe; chocar não é o mesmo que ser ilegal, e o prontuário decide. E a morte ou a fuga durante a internação se analisa pela categoria do dever de guarda e vigilância: a instituição responde quando a vigilância devida, diante do risco conhecido e registrado, não foi prestada, e não responde pelo desfecho imprevisível de quem estava sendo corretamente acompanhado. Nos dois casos, tudo se decide no prontuário, e o pedido de cópia é da família. E quando a clínica é privada mas conveniada ao SUS, há um responsável a mais do que a instituição — foi o que a Corte Interamericana decidiu ao condenar o Brasil no caso da morte de um paciente em clínica psiquiátrica conveniada. Quando a clínica de recuperação tranca a porta de quem entrou por vontade própria, o que a norma sanitária diz sobre a saída está em a porta trancada e a permanência voluntária. O acesso da família ao prontuário de quem está internado na psiquiatria, e o limite que o sigilo impõe a esse acesso, é examinado em o prontuário da internação psiquiátrica e a família. O que a presença de cães terapeutas numa enfermaria psiquiátrica exige da instituição, e o direito do internado de recusar a atividade, é examinado em os cães no hospital psiquiátrico e o que a lei ainda não regulou. Quando a irregularidade termina em interdição com o paciente lá dentro, a pergunta passa a ser destino e devolução, tema de clínica de recuperação interditada com meu filho dentro: para onde ele vai e quem me devolve? Na comunidade terapêutica não há prontuário, mas há dois papéis que a família pode exigir pelo nome certo: a ficha individual e a licença sanitária afixada.
Curatela, apoio e a proteção do patrimônio
A “interdição” que o público conhece mudou de natureza. Desde o Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei 13.146/2015), a curatela é medida protetiva extraordinária, proporcional às necessidades de cada caso, pelo menor tempo possível, e restrita aos atos de natureza patrimonial e negocial (arts. 84 e 85): não alcança o direito ao próprio corpo, à saúde, ao trabalho, ao voto, ao casamento. Não transforma ninguém em incapaz para a vida. Ao lado dela existe a tomada de decisão apoiada (Código Civil, art. 1.783-A), quase desconhecida e frequentemente mais adequada nos quadros iniciais: ninguém decide pela pessoa, ela escolhe quem decide com ela. A ação de interdição por dentro mostra o que o processo exige e o que ele costuma entregar: a entrevista pessoal do interditando e a perícia que precisa dizer quais atos exigem curatela, e a sentença que deveria ser um mapa e costuma ser um carimbo.
O documento que trava ou destrava esse processo é médico. O laudo de capacidade que conclui que o paciente é “incapaz para os atos da vida civil” descreve uma categoria que a lei não usa mais; o que o juiz precisa é da leitura funcional, por domínio, de quais atos a pessoa não consegue mais praticar sozinha, com prognóstico e data de reavaliação. O mesmo rigor vale, na direção inversa, para o atestado de discernimento para testamento ou procuração, que sai em duas linhas e quase nunca resiste quando o ato é questionado anos depois. E há a urgência que não espera a curatela terminar: o dependente ou o idoso com demência dilapidando bens, o carro vendido por um terço, os consignados em sequência, o “amigo novo” que virou procurador. A proteção patrimonial urgente tem medidas imediatas e desfaz o que já foi feito quando quem contratou não podia exprimir vontade. No caso específico do jogo, a Lei 14.790/2023 dá base expressa para discutir a devolução de valores apostados por quem tem ludopatia, mas a versão popular apagou as condições, e é nas condições que a maioria dos casos morre. Fora da família, a mesma autonomia vale no trabalho: o que a empresa pode saber e exigir na volta de um afastamento por transtorno mental é tema do artigo sobre transtorno bipolar, sigilo e retorno ao trabalho.
Por onde começar
Se a sua situação é a de tantas famílias, o filho, o irmão, o pai que precisa de ajuda e recusa, o mapa jurídico da família do dependente químico percorre as decisões na ordem em que elas se apresentam: ele aceita tratamento e não há como pagar; ele recusa qualquer tratamento; ele está destruindo o patrimônio; ele está internado e algo está errado. A ordem importa porque cada porta tem um documento próprio, e o documento que não existe não pode ser produzido depois. Antes de qualquer via, três providências escritas: o laudo médico circunstanciado, e não um termo de admissão; o regime da internação, com o nome e o registro de quem a autorizou; e a prova da comunicação ao Ministério Público em setenta e duas horas. Quem tem esses três papéis tem uma internação regular; quem não os tem, tem um problema.
E vale dizer o que este guia não é: um manual de internação. A lei brasileira trata a privação da liberdade terapêutica como último recurso, e a experiência confirma a sabedoria disso. Noventa dias desintoxicam; não reconstroem uma vida. O papel do direito é garantir o tratamento adequado e, quando a restrição é inevitável, garantir que ela seja legal, breve e digna. As famílias que atravessam melhor esse processo são as que o tratam como um capítulo do tratamento, não como o tratamento.
A providência mais barata deste guia. Pedir por escrito, com data: à clínica, o laudo, o regime e a comunicação ao Ministério Público; ao plano, a negativa por escrito com o motivo; ao médico, o relatório com a descrição do risco e a indicação do regime. A recusa escrita, ou o silêncio documentado, transforma a queixa em prova, e é o que separa o caso que anda do caso que vira palavra contra palavra. Para a família de quem está sob custódia com incidente de insanidade mental instaurado, o escritório explica o prazo de trinta dias e a equipe do SUS que a norma criou em artigo sobre a EAP-Desinst.
Situações frequentes
Cada situação abaixo tem análise própria, no mesmo eixo deste guia, reunida por tema na ordem em que costuma surgir na cabeça de quem procura ajuda. Para quem ficou anos internado e não tem para onde voltar, o instrumento do SUS é o Serviço Residencial Terapêutico: A internação psiquiátrica acabou e não há para onde voltar: o que é o Serviço Residencial Terapêutico e quem tem direito a uma vaga.
- Internar, e como. Involuntária ou compulsória, internação do dependente químico, internar um filho adolescente, os documentos que o médico assina, quem fiscaliza a clínica de recuperação, internação de pessoas em situação de rua.
- Dentro da internação. A clínica cortou o contato, contenção mecânica, presença médica e reavaliação, os direitos de quem foi internado à força, internação irregular e abusos, morte ou fuga durante a internação.
- Sair. Alta a pedido na internação voluntária, a família não concorda com a alta, multa e devolução na clínica de recuperação.
- Pagar. Quem paga a internação involuntária, internação psiquiátrica negada pelo plano, coparticipação após 30 dias, crise suicida e o plano, o plano paga a clínica de recuperação, saúde mental pelo SUS, burnout, vício em apostas, esketamina negada.
- Proteger a pessoa e o patrimônio. Curatela, a ação de interdição por dentro, tomada de decisão apoiada, o laudo de capacidade, atestado de discernimento, proteção patrimonial urgente, devolução de valores apostados, o mapa da família do dependente.
- Terapia, prova e sigilo. como se prova o dano de uma terapia sem prontuário e sem conselho e o que o artigo 207 do Código de Processo Penal proíbe quando a psicóloga é intimada.
No transtorno obsessivo-compulsivo, a dificuldade costuma vir depois da primeira consulta: quem responde pela continuidade da psicoterapia e do acompanhamento, no SUS e no plano.
Quem chega à vida adulta suspeitando de autismo também tem por onde começar: a investigação diagnóstica de TEA em adultos, pelo SUS e pelo plano, depois da Lei 15.256/2025. Uma situação nova chega pela tela: os deveres que a lei já impõe ao assistente de inteligência artificial que conversa com adolescentes estão em o filho que conversa com uma IA como se fosse terapeuta. Quem tem síndrome de Tourette e trabalha pode pedir adaptação razoável sem esperar o enquadramento como pessoa com deficiência, e o afastamento pelo INSS depende da incapacidade para a função, como discute o artigo sobre Lewis Capaldi, a síndrome de Tourette e a adaptação no trabalho. A primeira crise psicótica de um adulto jovem, o tratamento em casa, o consentimento e o sigilo de quem é conhecido são examinados no artigo sobre Vanessa Lopes e a crise psicótica aguda. Quando a doença leva primeiro a fala, e não o juízo, a lei pergunta se a vontade se exprime, e a tomada de decisão apoiada tem hora certa para ser pedida, como mostra o artigo sobre Bruce Willis, a afasia e o direito de decidir.
Quando não há direito
Este guia seria menos útil se não dissesse o que a família, no desespero, não quer ouvir. Não existe direito de manter alguém internado contra a avaliação do especialista responsável: a lei foi escrita para que não existisse. Não existe internação compulsória por vontade da família, nem internação involuntária sem laudo, nem internação em comunidade terapêutica. Não existe curatela para a vida inteira de alguém, nem laudo que substitua a leitura funcional do que a pessoa ainda consegue fazer. Não existe direito a acomodação paga dentro do SUS, nem a internação sem coparticipação quando a cláusula do plano é válida, nem a devolução de valores apostados sem as condições que a lei impõe. E a internação clinicamente indicada que se adia por medo também produz dano, às vezes irreversível: há quadros em que a recusa é sintoma, não escolha, e a lei previu por isso a modalidade involuntária. Reconhecer esses limites não enfraquece quem tem razão: é o que separa uma análise séria de uma aposta, e é o que este escritório entrega antes de qualquer outra coisa.
Se a sua família está diante de uma dessas decisões, internar, custear, sair, proteger, o escritório está disponível para uma análise responsável e sem alarde, a partir dos documentos que existem e dos que ainda precisam existir, inclusive quando a conclusão for a de que a via é clínica ou administrativa, e não judicial. Para expor o caso, entre em contato com o escritório.
Ramon Martins Andrade (OAB/RJ 188.374) é advogado formado pela UFRJ em 2011, com mestrados pela Université Sorbonne Nouvelle e pela EGN (Marinha do Brasil). Atualmente pesquisador em Direitos Humanos e Saúde pela ENSP/Fiocruz.
Leia também
- Internação involuntária ou compulsória? A diferença que a família precisa conhecer
- Internação do dependente químico contra a vontade: como a lei funciona
- Internação involuntária: quem paga a conta? SUS, plano de saúde e clínica particular
- Quem fiscaliza a clínica de recuperação? O que checar antes de internar alguém
- Curatela (a antiga “interdição”): o que mudou e quando ela é o caminho
- O que a família de um dependente químico pode fazer: o mapa jurídico
Fontes oficiais consultadas
Lei 10.216/2001 (proteção das pessoas com transtornos mentais), arts. 2º, 4º, 6º a 8º e 10 (Planalto)
Lei 11.343/2006, arts. 23-A e 26-A, na redação da Lei 13.840/2019 (Planalto)
Estatuto da Criança e do Adolescente, arts. 12, 16, 100 e 101 (Planalto)
Lei 8.080/1990, arts. 7º e 43 (Planalto)
Lei 9.656/1998, arts. 10-C, 12, 16 e 35-C (Planalto)
Lei 13.819/2019 (Política Nacional de Prevenção da Automutilação e do Suicídio) (Planalto)
Lei 13.146/2015 (Estatuto da Pessoa com Deficiência), arts. 84 e 85 (Planalto)
Código Civil, art. 1.783-A (tomada de decisão apoiada) (Planalto)
Lei 14.790/2023, arts. 26 a 29 (apostas de quota fixa) (Planalto)
STF, Tema 579 de repercussão geral (RE 581.488) — diferença de classe no SUS
STJ, Tema repetitivo 1.032 — coparticipação em internação psiquiátrica
Súmula 302 do STJ (Revista de Súmulas)
Anvisa, Nota Técnica nº 14/2025/SEI/GGTES/DIRE3 (comunidades terapêuticas e clínicas)
Resolução Cofen nº 746/2024 (contenção mecânica de pacientes)
Este conteúdo tem caráter meramente informativo e educacional, não constitui consulta jurídica, publicidade de resultados ou garantia de êxito em processos, nos termos do Provimento 205/2021 da OAB.
