Por Ramon Martins Andrade, advogado (OAB/RJ 188.374)
O direito à saúde pela rede pública é garantido pela Constituição, mas entre a garantia abstrata e o atendimento concreto existe um sistema com portas de entrada, filas reguladas, listas de medicamentos, protocolos clínicos e limites orçamentários. Nem tudo o que falta no SUS é ilegalidade; e nem toda negativa se sustenta. Este guia organiza as fronteiras: o que o cidadão pode exigir, de quem, e por qual caminho.
Ele foi escrito depois de uma virada. Entre 2024 e 2026, o Supremo Tribunal Federal reorganizou a judicialização de medicamentos, o Superior Tribunal de Justiça fechou a porta do tratamento no exterior, o Congresso aprovou o Estatuto do Paciente e a lei do tratamento fora do município, e o Ministério da Saúde reescreveu a atenção domiciliar e passou a contratar a rede privada para atender a fila pública. Quem procura informação hoje precisa conhecer o regime atual, mais técnico do que o de cinco anos atrás e, em vários pontos, mais exigente com quem pede. O que segue é o raciocínio inteiro: como o sistema funciona antes de qualquer direito, de quem cobrar, o que mudou em medicamentos, o que a fila deve ao cidadão, o deslocamento e o cuidado em casa, o erro na rede pública, os direitos que valem dentro do sistema, a prova e o caminho. Cada situação tem um texto próprio no site; este é o texto que os organiza.
Antes do direito, a porta certa. Quadro com risco à vida não é assunto de fila nem de advogado: é pronto-socorro de hospital, ou o 192. Urgência que não pode esperar o posto mas não é risco de morte é UPA. Tudo o que este guia descreve pressupõe que a emergência já foi atendida; nenhuma providência jurídica vem antes dela.
Como o sistema funciona antes de qualquer direito
Boa parte das negativas que chegam ao escritório não são negativas: são portas erradas. O SUS é universal, e o acesso é direito de qualquer pessoa no Brasil, inclusive de quem tem plano de saúde e de estrangeiros, turistas incluídos, o que os números que circulam sobre estrangeiros no SUS costumam esconder. Mas universal não significa desorganizado. A identificação do usuário passou a ser o CPF, com milhões de cadastros antigos inativados, e quem depende de tratamento continuado precisa conferir o próprio. A porta de entrada é a Unidade Básica de Saúde, e o especialista não se marca diretamente: chega-se a ele por um sistema chamado regulação, que ordena a demanda por gravidade e cronologia. Saber onde ir em cada situação e como usar o sistema na ordem certa é a primeira habilidade, e ela evita meses de espera na fila que não era a sua.
Dois programas mudam a experiência de quem está na fila e quase ninguém conhece pelo nome. O Agora Tem Especialistas, convertido na Lei 15.233/2025, contrata a capacidade ociosa da rede privada para atender pacientes do SUS em consultas, exames e cirurgias especializadas, sem custo e sem inscrição própria: o acesso é pela regulação comum, e o agendamento pode sair numa clínica privada, numa carreta do programa ou por teleconsulta. E a Farmácia Popular entrega gratuitamente, em farmácias privadas credenciadas, boa parte dos medicamentos de uso contínuo que muita gente paga por mês.
Duas dúvidas de quem tem plano merecem resposta direta. Usar o SUS tendo plano não tira nada de ninguém, e a conta que eventualmente surge não é do paciente: o art. 32 da Lei 9.656/1998 manda a operadora ressarcir o SUS pelo atendimento de seus beneficiários, regra que o STF declarou constitucional no Tema 345. Já a frase “pega pelo SUS que o plano não cobre” às vezes é orientação honesta diante de exclusão real e às vezes é forma de empurrar para a rede pública uma conta que era da operadora, e as duas portas podem ser usadas ao mesmo tempo. Por fim, quem faltou à consulta perde aquela vaga e volta ao fluxo da regulação, mas não pode ser punido com bloqueio de cadastro ou recusa de nova marcação: a universalidade do art. 7º da Lei 8.080/1990 não convive com pena de exclusão, e o Estatuto do Paciente, que criou o dever de avisar a desistência (Lei 15.378/2026, art. 22), não criou sanção de acesso. Antes mesmo disso, vale saber ler a lei que se pretende invocar: duas leis de saúde sancionadas no mesmo dia mostram a diferença entre criar direito subjetivo e impor dever de regulamentar. A diferença entre lei de política pública e direito exigível aparece com nitidez na lei de 2026 sobre a linfangioleiomiomatose, que promete “todos os meios disponíveis”. A universalidade não abre exceção por vínculo, e isso vale inclusive para quem contribui para um sistema de saúde próprio: é o que se explica em militar e dependente também têm SUS.
Vale notar o que esse desenho tem de incomum quando se olha para fora: a maioria dos países organiza o acesso por residência ou por contribuição, e há quem tenha passado a condicioná-lo à comprovação de atividade — comparação feita, com os números de quantos brasileiros realmente têm plano, em três em cada quatro brasileiros só têm o SUS.
A gratuidade e a universalidade aqui descritas são norma vigente, não meta de governo — e a diferença entre o que se declara numa tribuna e o que já obriga o Estado está em O Brasil falou de vacinas, OMS e saúde gratuita na tribuna da ONU. O que cada frase vale como direito dentro do país. A vacinação segue a mesma lógica — o direito é ao que o calendário define: o escritório explica quem tem direito à vacina do HPV no SUS. A acupuntura é um exemplo: está na política nacional de práticas integrativas desde 2006, mas a oferta depende de cada município. Parte do financiamento de instituições que atendem pelo SUS vem de renúncia fiscal, e não de repasse: é o caso do Pronon e do Pronas/PCD, prorrogados até 2031. Um exemplo de que a incorporação é da indicação, e não do aparelho, está em O mesmo exame entrou no SUS para descobrir o glaucoma e ficou de fora para acompanhá-lo. Como isso é possível? Protocolos clínicos também passam por consulta pública da Conitec antes de mudar, como no caso do protocolo de sepse em consulta pública. O que a Constituição admite e veda na participação privada no sistema, de organizações sociais a PPPs, está em privatizar o SUS: o que a Constituição permite e o que proíbe. Procedimento disponível na tabela não é o mesmo que indicação incorporada para cada doença, e a diferença aparece com nitidez em O SUS cobre transplante de medula de doador não aparentado no linfoma de Hodgkin?. Quem pediu refúgio e ainda espera a decisão do Conare também é atendido: veja por que o protocolo de refúgio basta para o atendimento no SUS. Na saúde bucal, a reabilitação dentária para mulheres em situação de violência mostra como a avaliação odontológica, o encaminhamento e os limites de registro na tabela se combinam no percurso da rede.
De quem cobrar: União, Estado ou Município?
A regra consolidada pelo STF é a da responsabilidade solidária: União, Estados e Municípios respondem em conjunto pelo dever de saúde (Tema 793), e o cidadão pode, em princípio, dirigir o pedido a qualquer deles, cabendo ao juiz direcionar o cumprimento conforme a repartição de competências do próprio SUS. Isso não significa que tanto faz. Em medicamentos, o Tema 1.234 (RE 1.366.243/SC) criou uma régua objetiva: para os medicamentos registrados na Anvisa mas não incorporados ao SUS, a ação corre na Justiça Federal, com a União no polo passivo, quando o custo anual do tratamento é igual ou superior a 210 salários mínimos; abaixo disso, permanece na Justiça Estadual. Os critérios de competência valem para as ações ajuizadas a partir de 22 de outubro de 2025; as anteriores seguem onde estão. Errar o foro não é detalhe formal: custa meses exatamente no caso em que o paciente não tem meses.
Há ainda uma escolha anterior à do ente, e ela é estratégica: quem tem plano de saúde e recebe uma negativa pode acionar a operadora, o poder público ou os dois, e os dois caminhos têm regras, prazos e chances completamente diferentes. Contra o plano, a relação é contratual e de consumo; contra o SUS, é de política pública, com os filtros que este guia descreve a seguir. Escolher mal também custa meses. O custo de litigar muda conforme o ente demandado, e a atualização das custas federais não alcança as ações contra Estado e Município — o tema está detalhado em Processar a União pelo SUS vai ficar mais caro?. E a perda da liberdade não suspende esse direito: quem está preso continua sendo usuário do SUS, com um dever adicional do Estado custodiante — veja a quem a família pede a saúde de quem está preso. A mudança de município também desloca o ente responsável pelo cuidado contínuo; o artigo sobre doença falciforme e mudança de cidade trata da transferência do acompanhamento, do medicamento e do plano de crise. Quando o município não aderiu à política nacional de saúde no sistema prisional, a pergunta sobre quem deve atender a pessoa presa é examinada em o preso tem direito à saúde, e se o município nunca entrou na política do SUS?. Quando o tratamento está em outro município e o seu não tem convênio com o serviço, a pergunta sobre de quem cobrar ganha contorno próprio, tratado em o consórcio intermunicipal de saúde e o tratamento em outro município.
Medicamentos: a régua ficou mais rigorosa
A primeira pergunta de qualquer negativa de medicamento não é “o médico prescreveu?”, e sim “em que situação esse remédio está diante do SUS?”. São três situações que o balcão trata como uma só, e cada uma tem um caminho diferente. A primeira é o medicamento padronizado que simplesmente está em falta. Aqui o direito não está em disputa: tudo o que precisaria ser demonstrado já foi decidido quando a tecnologia foi incorporada, e o que existe é falha de execução administrativa. A Lei 8.080/1990 não condiciona o fornecimento à existência de estoque; o estoque é dever do gestor. O problema desses casos é probatório, porque a falta acontece verbalmente e sem registro. Fazer a falta constar, com protocolo escrito na unidade e registro na ouvidoria, é o que transforma um relato em fato datado, e o ressarcimento do que a família comprou depende inteiramente dessa documentação anterior à compra.
A segunda situação é o medicamento incorporado cujo uso foi condicionado a critérios de protocolo, a frase “você não se encaixa no protocolo“. O protocolo clínico é norma administrativa dirigida aos gestores (Lei 8.080, art. 19-N, II), e o gestor deve aplicá-lo inteiro, inclusive nas partes que abrem exceção: o art. 19-O obriga os protocolos a prever os medicamentos das diferentes fases evolutivas da doença e os indicados em caso de perda de eficácia, intolerância ou reação adversa à primeira escolha. Muitas negativas não são recusa do direito, são leitura incompleta do documento ou ausência de registro médico da falha da primeira linha. Na falta de protocolo, a dispensação se faz pelas relações de medicamentos pactuadas (art. 19-P). E há o caso em que o protocolo existe e não prevê o medicamento que todo mundo dá como garantido, como o do TDAH, em que a estratégia jurídica muda por completo. A Lei 15.379/2026 acrescentou ao art. 19-O a previsão de imunoterapia nos protocolos oncológicos, mas dirigida ao conteúdo dos protocolos e condicionada a regulamento; lê-la como direito individual imediato seria distorcê-la.
A terceira situação é o medicamento não incorporado, e aqui a virada foi completa. Em setembro de 2024, o STF fixou no Tema 6 (RE 566.471) que a ausência do medicamento nas listas do SUS impede, como regra geral, o fornecimento por decisão judicial, independentemente do custo. A exceção existe e é cumulativa: negativa de fornecimento na via administrativa; ilegalidade do ato de não incorporação pela Conitec, ausência de pedido ou mora na apreciação; impossibilidade de substituição por medicamento das listas; comprovação de eficácia à luz da medicina baseada em evidências, com ensaios clínicos randomizados e revisão sistemática ou metanálise; imprescindibilidade clínica atestada em laudo; e incapacidade financeira de arcar com o custeio. O juiz, por sua vez, é obrigado a consultar o NatJus antes de decidir e a oficiar os órgãos competentes para avaliar a incorporação. A Súmula Vinculante 60 mandou o pedido administrativo, a judicialização e seus desdobramentos seguirem os fluxos homologados no Tema 1.234. Na prática, o laudo genérico que antes bastava hoje perde o caso, e ir direto à Justiça sem o requerimento administrativo virou motivo frequente de extinção do processo. Os textos sobre medicamento negado pelo SUS e sobre a Súmula Vinculante 60 e o Tema 1.234 desenvolvem cada requisito.
Três fronteiras completam o quadro. Medicamento sem registro na Anvisa segue regra própria e bem mais restritiva, a do Tema 500 do STF, em que o fornecimento é excepcional e a via administrativa de importação autorizada pela própria agência quase nunca é tentada antes da judicial. Registro, incorporação e cobertura são três decisões distintas, tomadas por autoridades distintas, e as canetas de semaglutida viraram o exemplo mais nítido de que registro na Anvisa mais prescrição não produzem obrigação de fornecer. E a incorporação em si não é caixa-preta: a Conitec submete cada recomendação a consulta pública aberta a qualquer pessoa, como as que discutiram a angiotomografia coronariana e a PrEP injetável em agosto de 2026; acompanhar as consultas da doença que interessa é das poucas formas de participação real que o sistema oferece. Para o medicamento que existe no SUS pelo Componente Especializado, o “alto custo”, o caminho é administrativo e tem um passo a passo próprio, com a LME como documento central e o PCDT como critério. Quando quem nega é o plano de saúde, a análise é inteiramente outra e está no guia sobre medicamento de alto custo negado pelo plano. Constar da lista de medicamentos essenciais da OMS não obriga o SUS a fornecer — e o motivo está na própria Lei 8.080. Consulta pública da Conitec não é incorporação, e o caso do resfriamento do couro cabeludo na quimioterapia mostra a distância entre as duas coisas. Quando o próprio Ministério propõe reescrever um desses protocolos, abre-se prazo para a sociedade opinar — foi o que ocorreu com a consulta pública sobre o protocolo da dor crônica. Na prática, boa parte das interrupções de entrega não é negativa, e sim laudo vencido: o percurso da renovação está em O LME venceu e a farmácia parou de entregar. Entre o estudo que sai na revista e o medicamento que chega à farmácia há um caminho com estações fixas — Anvisa, CMED, Conitec, consulta pública, decisão e prazo de oferta — que o escritório percorre em da pesquisa à prateleira: o caminho de um medicamento até chegar a você. Fórmulas nutricionais seguem regra própria: a fórmula para alergia ao leite de vaca é um exemplo, com protocolo e faixa etária definidos. Sobre o que vale enquanto um protocolo está em consulta pública, e na falta dele, veja O câncer de pulmão vai ter protocolo novo no SUS. E até lá, o que vale? O tratamento do tabagismo é um caso de protocolo com medicamento definido na rede pública; o que o SUS oferece a quem quer parar de fumar, e o que cabe pedir ao plano, está no artigo sobre o tratamento para parar de fumar. No Farmácia Popular, a regra de agosto de 2026 passou a prever penalidade para a recusa injustificada: veja quando a farmácia credenciada pode recusar o remédio. Consulta pública aberta na Conitec não cria direito imediato nem decide o que o plano de saúde deve cobrir, como mostram os casos do dostarlimabe e do risedronato para osteoporose. A gratuidade dos oncológicos prevista pela Lei 15.385/2026 vem acompanhada, no mesmo artigo, de critérios de uso por perfil clínico, e o que o paciente pode exigir quando ouve que não está no perfil está em o remédio contra o câncer é gratuito no SUS, mas me disseram que não tenho o perfil. E a recomendação de não incorporar não fecha a porta para sempre: fatos novos permitem reabrir o processo, como explica a Conitec disse não. Isso é definitivo? Em outubro de 2026, dezoito protocolos de câncer foram publicados de uma vez no SUS; o que a troca de protocolo muda no que o SUS deve. Quando a Conitec retira do SUS um remédio que o paciente já usa, a portaria de exclusão nem sempre traz regra de transição, mas o decreto da Conitec dá prazo para executá-la; o caso está em o SUS excluiu o ravulizumabe: e quem já está em tratamento?.
Filas, vagas e prazos: o que a espera deve ao cidadão
A fila do SUS, em si, não é ilegal: é o instrumento que organiza recursos escassos com impessoalidade, e o Judiciário que antecipa um paciente move outro para trás, normalmente alguém que não está na ação e não será ouvido. O que a Justiça corrige é a fila que deixa de funcionar como fila. A Lei 13.460/2017, o Código de Defesa do Usuário de Serviços Públicos, dá a régua: atendimento por ordem de chegada, ressalvados os casos de urgência e as prioridades legais (art. 5º, III); presunção de boa-fé, cumprimento de prazos e igualdade de tratamento. Uma fila em que alguém mais grave passa na frente está cumprindo a lei; o que a lei não admite é a ordem alterada sem critério declarado. E o cidadão tem o direito de saber onde está na fila: a solicitação registrada na regulação é procedimento administrativo em que ele é o interessado (art. 6º, VI, d), a ouvidoria responde em até trinta dias sem poder exigir os motivos do pedido (arts. 10, § 2º, e 16), e a Lei de Acesso à Informação dá vinte dias para a resposta formal. Primeiro se obtém, por escrito, a posição, a data de entrada e a classificação de risco; depois se avalia se há falha. O caminho inverso costuma produzir um processo sem o documento que o decidiria.
As falhas identificáveis são outras, e é sobre elas que um pedido se sustenta: a quebra da ordem sem justificativa, a classificação de risco que não corresponde ao quadro documentado, a solicitação perdida no sistema, a recusa de informar e o descumprimento de prazo legal específico quando ele existe. O exemplo mais importante desse último é o câncer: a Lei 12.732/2012 assegura o início do primeiro tratamento no SUS em até 60 dias contados do laudo patológico, e quem dispara o relógio é o documento, não a sensação de espera; guardar a data do laudo é o que transforma “estou esperando há muito tempo” em “o prazo legal venceu no dia tal”. A cirurgia que não chega se discute pelo agravamento documentado e pela ausência de qualquer previsão; a vaga de UTI é o caso extremo, em que a jurisprudência reconhece o dever do Estado de assegurar o leito, inclusive na rede privada às suas expensas, quando a demora representa risco concreto, e em que a providência jurídica corre em paralelo à médica, nunca no lugar dela. Há também a face menos visível da fila: quando um equipamento público é usado para fim particular, quem estava marcado para aquele horário tem uma pergunta a fazer, e a lei dá a ela mais respostas do que se imagina. A partir de março de 2027, a avaliação anual da saúde da mulher passa a ter base legal própria — com exames por critério epidemiológico, não a pedido. Sobre a fila da cirurgia eletiva e o que a Política Nacional de Regulação manda medir, veja o artigo sobre o prazo que não existe. O rastreamento do câncer colorretal, incorporado em 2026, vai testar essa fila na etapa da colonoscopia: veja o que fazer se o exame de fezes der positivo e a colonoscopia não sair. Na suspeita de câncer, o prazo para os exames e para a liberação do laudo tem regra própria na Lei 12.732/2012. E quando a gestão abre um mutirão, a fila não se duplica: a oferta aumenta, a ordem continua sendo a da regulação, e o que cabe a quem ficou de fora é pedir a posição e o critério da convocação, como explica o artigo sobre o mutirão de cirurgias e quem não foi chamado. Na reconstrução de mama, a simetrização da outra mama integra a cirurgia e passou a constar do mesmo código da tabela, como explica o artigo sobre a reconstrução de mama pelo SUS. Para quem precisa de transplante de medula e não tem doador na família, veja como funciona a busca de doador no REDOME. A quantidade de vagas de acolhimento que um município deveria ter sai de uma fórmula da própria norma, examinada em a conta das vagas de acolhimento. A obrigação legal de o SUS publicar o tempo médio de espera, e o que esse dado permite a quem está na fila, é o tema de o painel público do tempo de espera. Quando já existe ordem judicial de internação e o hospital responde que não há vaga, a questão muda de natureza: a Justiça mandou internar e o hospital disse que não tem vaga. Entre o diagnóstico de câncer e o início do tratamento, a Lei 14.758/2023 instituiu o Programa Nacional de Navegação, e o que ele permite pedir, e a quem, está em tenho direito a um navegador depois do diagnóstico de câncer?. No AVC, a espera se conta em minutos: o protocolo põe no gestor o dever de definir para onde vai quem precisa de trombectomia, e o que isso prova quando a trombólise foi feita e a transferência não veio está em a trombólise foi feita, mas a trombectomia não: o hospital tinha de me transferir? Na fila do transplante de rim, quem é chamado primeiro e o que a lei chama de prioridade estão em fila do transplante de rim: a ordem e a prioridade. A diferença entre o prazo que a lei dá ao paciente com câncer e o que depende de política pública aparece em promessa sobre câncer não cria direito: o que já pode ser exigido do SUS hoje.
Deslocamento, cuidado em casa e tratamento no exterior
Quando o tratamento não existe no município do paciente, o Tratamento Fora de Domicílio, o TFD, custeia o transporte e, quando justificado, as despesas de acompanhante. Ele existe desde a Portaria SAS/MS nº 55/1999 e tem requisitos que surpreendem quem espera direito automático: esgotamento dos meios de tratamento no próprio município, vaga garantida no município de referência, solicitação pelo médico assistente autorizada por comissão do gestor, e vedação de pagamento em deslocamentos inferiores a 50 km ou dentro da mesma região metropolitana, filtro que elimina a maior parte dos casos de quem mora na Região Metropolitana do Rio e se trata na capital. A Lei 15.390/2026 elevou esses mesmos requisitos à condição de lei federal e acrescentou a partilha do custeio entre os entes, mas só entra em vigor em 16 de abril de 2027, usa o verbo “poderá” e remete a regulamento; o único dispositivo vetado foi justamente o que daria ao usuário o direito de restituição do que gastou. A lei nova e a que já vale são coisas diferentes, e o que se pede hoje é TFD. No Rio de Janeiro, a SES-RJ cuida do deslocamento interestadual; o intermunicipal começa na secretaria municipal.
O cuidado em casa pelo SUS também tem regime próprio, e não é o mesmo do home care do plano. A atenção domiciliar da Portaria de Consolidação GM/MS nº 5/2017, reescrita pela Portaria GM/MS nº 3.005/2024, organiza o cuidado em três modalidades: a AD 1, do paciente crônico estável com visitas espaçadas, é responsabilidade da Atenção Primária, não do Serviço de Atenção Domiciliar; a AD 2 e a AD 3, com cuidados multiprofissionais intensificados ou equipamentos de maior complexidade, são o Melhor em Casa. Muita família peregrina atrás do programa com um quadro que a própria norma endereça ao posto de referência, e não há direito subjetivo a um serviço que o município não habilitou. O primeiro passo de qualquer pedido é perguntar por escrito em qual modalidade o paciente foi enquadrado; o que a atenção domiciliar pública oferece e quando é devida está no texto próprio.
A porta do tratamento no exterior foi definida, e quase fechada, pelo STJ em 2026. No REsp 1.860.543/PR (Segunda Turma, relator ministro Marco Aurélio Bellizze, julgado em 16/06/2026), a Corte admitiu o custeio apenas em caráter excepcional, mediante demonstração cumulativa de quatro requisitos: inexistência de alternativa terapêutica eficaz no país, comprovação científica robusta de eficácia e segurança, imprescindibilidade clínica e incapacidade financeira. A frase central do acórdão vale para todo este guia: não há direito subjetivo à melhor tecnologia disponível no mundo, e a existência de centro estrangeiro com índices melhores, por si, não justifica o financiamento público. O que segue possível exige prova técnica de que os centros habilitados no Brasil não atendem o caso concreto.
Quando o deslocamento exige passar semanas fora, a pergunta que sobra é onde o paciente dorme — e a acomodação segue lógica própria, distinta da ajuda de custo, explicada em casa de apoio, hotel ou casa de parente: onde o paciente do SUS dorme quando o tratamento é longe. Para quem vive com estomia, os insumos são condição de saúde e a lei nomeia a condição como deficiência: veja o que o SUS e o plano devem a quem tem estomia. O tratamento no exterior custeado pelo SUS não se confunde com a compra de um transplante fora da lista, tema do artigo sobre transplante no exterior e o alcance da lei brasileira. Para quem depende de um centro de referência distante, o artigo sobre hemofilia longe do centro de tratamento mostra como manter a profilaxia e garantir o fator na urgência. Sobre a visita da equipe de saúde da família ao domicílio, inclusive nos territórios mais vulneráveis e distantes, veja quem tem direito a visita domiciliar do SUS. Para quem faz radioterapia, diálise ou outro tratamento em outra cidade, o que a norma garante de transporte e de diárias está em transporte e diárias no tratamento fora do município. O caminho do pedido de transporte para radioterapia e diálise, e por que ele passa pelo município, está em transporte para radioterapia e diálise pelo SUS. Quando o Ministério suspende o repasse federal das equipes porque o município deixou de alimentar o cadastro nacional, o serviço não acaba nem o paciente é desligado: o que muda e a quem a família se dirige tem passo a passo próprio.
Quando o problema não é acesso, é erro
Falha de atendimento em hospital público, UPA ou posto segue lógica distinta da negativa de acesso. A ação se dirige contra o ente que administra a unidade, o município, o estado, a autarquia ou a organização social que a gerencia, e não contra o médico pessoalmente, que pode responder depois em ação de regresso movida pelo próprio Estado. A responsabilidade do poder público é objetiva (Constituição, art. 37, § 6º): demonstrados o dano e o nexo com o atendimento, não se discute culpa do ente. Objetiva, porém, não significa automática. Boa parte dos casos da rede pública é de omissão, a demora em atender, o diagnóstico que não se fez, o leito que não veio, e na omissão a jurisprudência exige demonstrar a falha do serviço: que o atendimento devido, naquelas circunstâncias, não foi prestado como a norma técnica mandava. Resultado ruim, por si, não gera indenização em nenhum regime; a medicina pública também é obrigação de meio. O prontuário é ainda mais decisivo, e nas unidades públicas somam-se registros que a rede privada não tem, como os sistemas de regulação e as escalas de plantão. O prazo contra a Fazenda Pública é de cinco anos, com particularidades de contagem. O tema conecta este guia ao guia de erro médico e tem análise específica no texto sobre erro em hospital público. No infarto atendido em UPA, a Lei 15.494/2026 cria um dever de organização, não um direito ao trombolítico — a distinção está em texto próprio.
Os direitos que valem dentro do sistema: o Estatuto do Paciente e a autonomia
Desde abril de 2026, o que estava espalhado em resoluções de conselho e cartilhas de ouvidoria está em lei federal. O Estatuto dos Direitos do Paciente, a Lei 15.378/2026, aplica-se a serviços públicos e privados e às operadoras (art. 3º), sem afastar o Código de Defesa do Consumidor (art. 4º). Ele garante acompanhante em consultas e internações (art. 7º), acesso ao prontuário sem justificativa e com cópia sem ônus (art. 19), informação sobre diagnóstico, alternativas e riscos (art. 12), consentimento sem coerção e revogável (art. 14), a indicação de um representante por simples registro no prontuário (art. 6º), a segunda opinião e o tempo para decidir (art. 18) e os cuidados paliativos nos termos dos regramentos do SUS (art. 21). O que ele não fez importa tanto quanto: é lei de direitos, não de sanções. Não cria multa, tipo penal nem parâmetro de indenização; a violação abre um canal institucional de denúncia (art. 24), e quem sofreu dano continua tendo de demonstrar conduta, dano e nexo. Tratar o Estatuto como passe livre para pedidos indenizatórios é erro que custa caro no processo.
A mudança de patamar mais relevante está na autonomia. As diretivas antecipadas de vontade, o chamado testamento vital, passaram a ter definição e força de lei (arts. 2º, II, e 20), com respeito garantido inclusive na situação de risco de morte com paciente inconsciente (art. 14, § 2º), quando antes a base era a Resolução CFM 1.995/2012, que vincula o médico perante o conselho, não a família; o registro em prontuário que cabe ao médico continua sendo o passo que quase ninguém dá, e a lei transferiu ao paciente o ônus de fazer o documento chegar ao serviço. Na mesma linha, o STF fixou em 2024, no Tema 952, o direito da pessoa maior e capaz de recusar transfusão de sangue por convicção religiosa e tratou, na outra ponta, do dever do poder público de disponibilizar os procedimentos alternativos existentes, nos limites que o próprio julgamento fixou. A autonomia tem também o seu limite mais surpreendente: nenhum órgão é retirado para transplante sem autorização da família, mesmo de quem registrou a própria vontade em cartório, porque a Lei 9.434/1997, desde a Lei 10.211/2001, condiciona a retirada ao consentimento dos familiares.
Duas frentes de saúde pública fecham este capítulo. A vacinação de crianças é obrigatória pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (art. 14, § 1º), com a constitucionalidade da obrigatoriedade afirmada pelo STF no Tema 1103, e a pergunta inversa, sobre a vacina que falta no posto, tem resposta própria. E o tratamento do HIV é gratuito por lei desde 1996: a Lei 9.313, cuja origem mostra que a via judicial não nasceu como distorção, garante a terapia, a PEP e a PrEP pelo SUS, e a discussão sobre quebra de patente explica o que a licença compulsória autoriza e o que ela não resolve. Quem convive com dor crônica tem direitos próprios dentro do sistema, examinados no artigo sobre fibromialgia, SUS e plano de saúde. A igualdade no atendimento, sem distinção de raça ou cor, tem fundamento em tratado em vigor no Brasil desde 1969, examinado em o que a lei garante a quem foi tratado de modo diferente por causa da cor. A consulta com especialista marcada por vídeo, e o espaço que o paciente tem para pedir o atendimento presencial, é o assunto de minha consulta com especialista do SUS é por vídeo: posso recusar e exigir a presencial?. O que a lei criou para o paciente indígena dentro do SUS, e o que a Convenção 169 da OIT acrescenta a isso, está em paciente indígena no SUS: o que a lei criou e o que a Convenção 169 da OIT exige.
Prova e caminho: o que decide esses casos
Contra o poder público, a documentação pesa ainda mais do que contra um plano, porque o Judiciário passou a exigir, em vários cenários, a via administrativa esgotada e documentada como requisito de entrada. Quatro peças decidem quase tudo: o relatório médico fundamentado, o pedido administrativo com protocolo, a resposta ou o silêncio, e o histórico do caso. O roteiro do que reunir está no texto próprio. O relatório merece atenção especial, porque ele será lido por alguém que não é o juiz: os núcleos de apoio técnico criados pela Resolução CNJ 238/2016 e organizados em rede pela Resolução CNJ 479/2022 verificam registro, indicação, evidência, alternativa padronizada e posologia, e saber quem lê o relatório antes do juiz muda a forma de escrevê-lo. Quando a nota técnica vem desfavorável, ela não é sentença antecipada nem perícia, e existe caminho formal de revisão que quase ninguém usa; mas às vezes ela simplesmente está certa, e reconhecer isso cedo poupa o paciente de uma decisão que pesará nas seguintes.
O que não fazer é tão importante quanto o que fazer: comprar o medicamento antes de protocolar o pedido e registrar a falta; ajuizar a ação sem o requerimento administrativo; misturar no mesmo pedido o TFD, que é ajuda de custo de deslocamento, com a vaga e a fila, que são regulação e acesso; e contar com a espera, sozinha, como argumento. A Ouvidoria Geral do SUS atende pelo 136 e gera protocolo; a Defensoria Pública é porta gratuita para quem não pode contratar; e a ouvidoria da unidade, o conselho de saúde e a secretaria responsável pela regulação formam as camadas de cobrança que antecedem qualquer ação. E, se a ação termina com ganho, os honorários fixados na sentença são pagos pelo ente público vencido, não pelo paciente, e o que o Tema 1313 do STJ mudou nesse cálculo está em ganhei na Justiça contra o município pelo tratamento: quanto vai para o advogado?
A providência mais barata deste guia. Pedir por escrito, com data e protocolo, antes de qualquer conversa: o medicamento na unidade, a posição na fila na ouvidoria, a cópia do prontuário na direção, o enquadramento da atenção domiciliar na secretaria. O papel que não existe não pode ser produzido depois, e é ele que decide se o caso é de correção administrativa, de discussão judicial, ou de nenhum dos dois. É por esse mesmo terreno que corre o pedido de suspensão de liminar, instrumento que o ente público aciona fora da via recursal: entender o que ele pergunta, e o que não pergunta, evita confundir suspensão com derrota no mérito. Quando a contestação do ente público invoca a falta de recursos, há um argumento de direito internacional vigente que o foro usa pouco: as obrigações essenciais do direito à saúde que “não há recursos” não justifica.
Situações frequentes
Cada situação abaixo tem análise própria, no mesmo eixo deste guia, reunida por tema. As duas séries práticas, como usar o SUS e o acesso do estrangeiro, são guias por si e organizam o passo a passo que este artigo pressupõe. A cadeira de rodas motorizada está na tabela do SUS desde 2013, com rito administrativo próprio — o que a família pode pedir antes de abrir uma campanha, e por que a cadeira da tabela não é a da vaquinha. Quando um desastre interrompe o serviço de saúde, o que cada ente tinha de ter feito antes, durante e depois — e o que a população atingida pode documentar — está em artigo sobre a Rede Vigidesastres.
- Usar o sistema. Como usar o SUS, o Cartão SUS virou CPF, UBS, UPA ou hospital, consulta com especialista, Agora Tem Especialistas, Farmácia Popular, faltei à consulta, tenho plano, posso usar o SUS, estrangeiro pode usar o SUS, estrangeiros no SUS e brasileiros em Portugal.
- Medicamentos. Medicamento negado pelo SUS, Súmula Vinculante 60 e Tema 1234, requerimento administrativo prévio, contra quem processar: os 210 salários, alto custo passo a passo, fora do protocolo, remédio em falta na farmácia, sem registro na Anvisa, caneta emagrecedora, Venvanse e Ritalina, o plano mandou pegar no SUS, SUS ou plano, angiotomografia e Conitec, PrEP injetável, PrEP, PEP e HIV, quebra de patente, a origem da judicialização.
- Filas, vagas e prazos. Onde estou na fila, cirurgia demorando, vaga de UTI, câncer: os 60 dias, os 60 dias começam no laudo, equipamento público usado para fim particular.
- Deslocamento, casa e exterior. TFD, a Lei 15.390/2026, home care pelo SUS, plano ou Melhor em Casa, tratamento no exterior.
- Direitos e autonomia. Estatuto do Paciente, testamento vital, o registro das diretivas pelo médico, recusa de transfusão, doação de órgãos e a família, vacinação obrigatória, erro em hospital público, laqueadura: regras, prazo e a laqueadura no parto.
- Prova e caminho. O que reunir, quem lê o relatório antes do juiz, nota técnica desfavorável.
Há ainda a prescrição que não é de remédio nem de cirurgia, mas de exercício. O SUS a atende por programa, e não por custeio individual: a Portaria de Consolidação GM/MS 5/2017 mantém o Programa Academia da Saúde, cujos polos incluem o profissional de educação física entre as ocupações habilitadas, e a Portaria GM/MS 635/2023 financia as equipes multiprofissionais da atenção primária, que também o preveem. O que o paciente pode exigir é o acesso ao serviço onde ele foi instituído; o treinador pessoal custeado pelo gestor fica fora dessa oferta. Médico prescreveu exercício: o SUS oferece educador físico e o plano paga o personal trainer? percorre as duas vias.
Três linhas de cuidado têm regras próprias no SUS. A hemodiálise depende de vaga em clínica perto de casa e de transporte, e o STJ já mandou custear a rede privada enquanto a vaga pública não surge: hemodiálise pelo SUS. O transplante de rim com doador vivo fora da família passa por comissão de ética, alvará judicial e comunicação ao Ministério Público: rim de doador vivo. E a cardiopatia congênita começa no teste do coraçãozinho e segue pela regulação da cirurgia infantil: do berçário à cirurgia. Nos hospitais, o diagnóstico de morte encefálica segue protocolo que a família pode acompanhar (o que a família pode exigir), e a tecnologia assistiva indicada pelo terapeuta ocupacional tem caminho próprio na rede de reabilitação (quem paga a adaptação).
Filas e doenças de notificação têm regras próprias no SUS. A fila do fígado anda pelo MELD, e a do pulmão, pelo tempo de espera; a hepatite C tem cura pelo SUS e a tuberculose tem limites ao isolamento forçado. Na assistência social, pesam a alta de quem não tem para onde ir e o transporte gratuito para tratamento.
Outras esperas têm responsável definido: o aneurisma rompido sem vaga de neurocirurgia, a fístula para hemodiálise que não sai, os prazos de 30 e 60 dias no câncer de mama e o percurso das doenças raras.
Na atenção primária e nos programas do SUS, a responsabilidade aparece no percurso: o paciente que se perde entre a unidade básica e o especialista, o sigilo do agente comunitário, a caneta de adrenalina e os óculos para crianças.
Dois problemas de percurso, na porta de entrada e na triagem neonatal, ganharam análise própria: quando a UBS diz que o pedido não está na fila, como descobrir o que houve com a solicitação; e quando o teste da orelhinha deu “falha” e ninguém marcou o reteste, o que a família pode pedir à maternidade e ao serviço de saúde.
Para quem passou por transplante de medula, a vacinação recomeça do zero e passa pelo CRIE: quem monta o calendário, o que a secretaria de saúde deve ao paciente e o que pedir ao plano.
Quando o sangramento intenso tem origem em mioma, o SUS incorporou dois tratamentos em janeiro de 2026, com prazo de oferta já vencido: quem tem direito a cada um e o que muda no plano de saúde.
A distonia focal da mão, a que aparece só numa tarefa, tem protocolo no SUS com toxina botulínica e pode ter relação com o trabalho: o que o protocolo garante e quando a doença é ocupacional.
O teste de hepatite B que volta reagente abre uma sequência prevista no protocolo do SUS, com exame confirmatório, testagem dos contatos e etapas com prazo na gestação e antes de imunossupressão: o que precisa acontecer depois do resultado e quem responde pela etapa omitida.
Quem tratou um câncer fora do país e voltou entra no SUS pela mesma porta de qualquer usuário; os documentos a trazer e o que a continuidade do cuidado garante estão no artigo sobre o seguimento, no Brasil, do câncer tratado no exterior.
Na esclerose múltipla tratada pela rede pública, o remédio sai da farmácia todo mês, mas o protocolo manda os gestores estruturar a rede, definir os serviços de referência e reavaliar o paciente; quem responde pelo cuidado entre uma consulta e outra, e o que se pode exigir quando a reavaliação ou a reabilitação não acontece, está no artigo sobre Guta Stresser e a esclerose múltipla no SUS.
A mamografia a partir dos 40 anos voltou à lei em dezembro de 2025, mas a diretriz do Ministério convoca para a rotina dos 50 aos 74; como as duas regras convivem, o que a ciência diz sobre começar aos 40 e o que a mulher pode exigir estão no artigo sobre a mamografia aos 40 anos no SUS e no plano.
Na doença rara sem protocolo clínico, como a síndrome da pessoa rígida, a Portaria GM/MS 199/2014 já diz quem coordena o cuidado (a atenção básica) e quem acompanha (o serviço de referência), e a Lei 8.080 organiza o remédio pelas listas e pela incorporação; quem responde por quem tem doença rara sem roteiro escrito, e o que se pede primeiro, está no artigo sobre Céline Dion e a síndrome da pessoa rígida no SUS.
Quando o tratamento disponível se esgota e a família considera um estudo clínico no exterior, o SUS não paga o experimental (Lei 8.080, art. 19-T), mas continua devendo o cuidado que segue aqui, entre ciclos e depois da volta; o que a Lei 14.874/2024 garante a quem participa de pesquisa no Brasil e deixa de garantir a quem participa fora está no artigo sobre Preta Gil e os estudos clínicos no exterior. Depois de uma hemorragia cerebral, a alta do hospital do SUS deve sair referenciada à reabilitação, com destino e não apenas com receita: o que a Rede de Cuidados à Pessoa com Deficiência exige na alta está no artigo sobre Emilia Clarke e a alta após hemorragia cerebral. Depois do transplante de rim, a Lei 9.434/1997 termina na cirurgia e o imunossupressor que mantém o enxerto vem por outra porta, o Componente Especializado da Assistência Farmacêutica, com protocolo próprio e renovação periódica que não pode falhar, como mostra o artigo sobre Selena Gomez e o seguimento após o transplante de rim. Na obesidade grave, a bariátrica pelo SUS tem caminho escrito desde 2013, da unidade básica ao hospital habilitado e ao acompanhamento até o 18º mês, mas nenhuma norma fixa prazo para a fila, que deve ser ordenada pelo risco e informada ao paciente, como mostra o artigo sobre Thais Carla e o caminho até a bariátrica pelo SUS. Já quem vive com epilepsia controlada precisa do remédio sem falha e, se planeja engravidar, de uma troca antecipada que pode passar pelo Componente Especializado, como explica o artigo sobre Camila Coelho e a epilepsia: o remédio de todo dia, a gravidez e o que a lei garante. E quem vive com uma doença rara que ainda não tem nome continua com direito à investigação pelos serviços de referência, à reabilitação, às órteses e a um serviço de saúde sem barreiras, nada disso condicionado ao laudo genético, como mostra o artigo sobre Pequena Lô e a doença rara sem nome. Na fila do transplante, a régua do coração é quase toda urgência, quem já recebeu um órgão pode entrar com critério próprio na lista do segundo, e o paciente pode saber da própria posição, como explica o artigo sobre Faustão e os transplantes de coração e rim.
Quando não há direito
A resposta honesta que orienta todos os textos deste guia: o SUS não é obrigado a fornecer tudo, e a via judicial não é atalho, é correção de ilegalidade. Não há direito ao medicamento não incorporado quando faltam os requisitos cumulativos do Tema 6, e um laudo bem escrito não substitui a evidência que ele precisa citar. Não há direito ao remédio sem registro na Anvisa fora da exceção estreita do Tema 500. Não há direito à antecipação na fila pelo simples decurso do tempo, nem à melhor tecnologia disponível no mundo, nem ao TFD para o deslocamento de 40 quilômetros dentro da mesma região metropolitana, nem ao Melhor em Casa no município que não o habilitou. Não há indenização pela vaga perdida por falta, nem pelo resultado ruim de um tratamento correto na rede pública. Reconhecer esses limites não enfraquece quem tem razão: é o que separa uma análise séria de uma aposta, e é o que este escritório entrega antes de qualquer outra coisa.
Se a sua situação se parece com alguma das descritas aqui, com prescrição fundamentada, pedido protocolado e negativa ou silêncio documentados, o escritório está disponível para uma análise responsável a partir dessa documentação, inclusive para dizer com franqueza quando o pedido não reúne os requisitos. Para expor o caso, entre em contato com o escritório.
Ramon Martins Andrade (OAB/RJ 188.374) é advogado formado pela UFRJ em 2011, com mestrados pela Université Sorbonne Nouvelle e pela EGN (Marinha do Brasil). Atualmente pesquisador em Direitos Humanos e Saúde pela ENSP/Fiocruz.
Leia também
- Cobraram de mim dentro do SUS: o que fazer
- Medicamento negado pelo SUS: quando a Justiça pode determinar o fornecimento
- Súmula Vinculante 60 e Tema 1234: como pedir medicamento ao SUS depois da nova regra
- Onde eu estou na fila do SUS e o que a lei exige de quem organiza a fila
- Tratamento fora do seu município pelo SUS: a lei nova e a que já vale
- Estatuto dos Direitos do Paciente: o que a Lei 15.378/2026 mudou de fato
- Negativa do SUS: o que reunir antes de buscar a via judicial
Fontes oficiais consultadas
Constituição Federal, arts. 37, § 6º, e 196 (Planalto)
Lei 8.080/1990 (Lei Orgânica do SUS), arts. 7º e 19-N a 19-R (Planalto)
Lei 13.460/2017 (Código de Defesa do Usuário de Serviços Públicos), arts. 5º, 6º, 10 e 16 (Planalto)
Lei 12.527/2011 (Lei de Acesso à Informação), art. 11 (Planalto)
Lei 12.732/2012 (prazo de 60 dias para o primeiro tratamento oncológico) (Planalto)
Lei 15.378/2026 (Estatuto dos Direitos do Paciente) (Planalto)
Lei 15.390/2026 (tratamento fora do município de residência) (Planalto)
Lei 15.379/2026 (imunoterapia nos protocolos oncológicos) (Planalto)
Lei 15.233/2025 (Programa Agora Tem Especialistas) (Planalto)
Lei 9.656/1998, art. 32 (ressarcimento ao SUS) (Planalto)
Lei 9.434/1997, art. 4º (doação de órgãos) (Planalto)
Lei 9.313/1996 (distribuição gratuita de medicamentos para HIV) (Planalto)
Portaria SAS/MS nº 55, de 24 de fevereiro de 1999 (Tratamento Fora de Domicílio)
Portaria GM/MS nº 3.005/2024 (atenção domiciliar no SUS) (DOU)
STF, Tema 6 (RE 566.471) — critérios para a concessão judicial de medicamentos não incorporados (notícia oficial)
STF, Tema 1.234 (RE 1.366.243/SC) — competência e fluxos em medicamentos não incorporados
STF, Tema 793 (RE 855.178) — responsabilidade solidária dos entes federativos
STF, Tema 952 — recusa de transfusão de sangue por convicção religiosa
STJ, REsp 1.860.543/PR (2ª Turma, j. 16/06/2026) — tratamento no exterior pelo SUS
Resolução CNJ nº 238/2016 (núcleos de apoio técnico do Judiciário)
Resolução CNJ nº 479/2022 (e-NatJus)
Este conteúdo tem caráter meramente informativo e educacional, não constitui consulta jurídica, publicidade de resultados ou garantia de êxito em processos, nos termos do Provimento 205/2021 da OAB.
